As crônicas são escritas com o ar despojado que caracteriza o gênero, por vezes pincelando alguns outros temas, mas nem por isso perdem o tom de sacralidade que caracteriza o ato de um nascimento. Neste caso, o de um pai.
Como nos transformamos em pessoas responsáveis por outra vida é a questão que Agualusa procura responder – sem sucesso (não há soluções) e com muita poesia.
Trechos:
- Vou ser pai, eu, que ainda estou a aprender a ser filho?
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Viajar no tempo, na verdade, viajamos todos e com incrível rapidez. Viajamos em direção ao futuro e ao inevitável desastre. O desafio consiste em fazer essa viagem sem deixar que o coração envelheça. Ter filhos pode ajudar. Um filho – seja criança ou adolescente – é uma espécie de âncora que nos agarra ao presente, impedindo-nos a deriva melancólica para o passado. Um filho leva-nos pela mão, como um pequeno cicerone, e dá-nos a ver o futuro: ali as maravilhas, acolá os monstros, e tanto os monstros como as maravilhas fazem parte do mesmo jogo – desafios a vencer com alegria.
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Um filho é também uma segunda oportunidade para ser criança – e para algumas pessoas pode ser a primeira oportunidade.
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Vou ser pai dentro dos próximos dias. A barriga da minha mulher cresceu prodigiosamente. Ocupa agora a cama toda, a casa toda, tropeço nela nos lugares mais improváveis. É uma barriga redonda, firme mas suave, que parece iluminar-se quando a percorro com os dedos, do mesmo modo que as águas do mar acordam um rumor de luzes – ardentia marítima – à passagem dos navios. Surpreendo-me ao descobrir que as mulheres muito grávidas perdem o umbigo, e depois penso que a transformação faz sentido, pois é isso mesmo que significa a maternidade: altruísmo, a entrega a um outro.
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A infância é o que conhecemos mais próximo da eternidade. (...) É um tempo inesgotável, e cuja essência perseguimos até o fim dos nossos dias.
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Descobri, felizmente, que o mundo está cheio de pais. Antigamente, eu conversava sobre livros, viagens, filmes, música, trocava receitas exóticas, debatia o difícil futuro da humanidade. Agora, discuto sobre fraldas, marcas de leite em pó, brinquedos e brincadeiras, ou sobre como enfrentar a meio da noite uma crise de cólicas. Quanto ao futuro, de repente, deixou de ser uma coisa abstrata – é lá que o meu filho vai viver.
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Um filho devolve-nos a inocência perante a vida – as crianças inauguram o mundo em cada dia e ao fazê-lo ensinam-nos a vê-lo, novinho em folha, como se também nós voltássemos a ser recém-nascidos.
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Um filho, portanto, infantiliza-nos, ou seja, reaproxima-nos da infância e, por consequência, da poesia.
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Somos jovens, invulneráveis, até o dia em que nos achamos com um filho nos braços. Então descobrimos que o mundo está cheio de perigos. A esta perpétua inquietação em que passamos a viver também se chama responsabilidade.
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Após um mês longe do meu filho, achei-o outro. Achei-o eu. Vejo-o a ele e tenho por vezes a sensação de que estou a ver-me a mim em versão reduzida e melhorada.
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Sempre é mais divertido reinventar o mundo do que encontrá-lo já pronto a usar.
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Aquela vida que irrompeu assim, aos gritos, para dentro da minha instalou-se entretanto nela com tal arte, e com tão sábia ternura, que não consigo já imaginar o mundo sem sua presença.
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Um avô é um pai em estado de orgulhosa irresponsabilidade.
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Um filho é sempre um recomeço. Um filho é a maneira que temos de reiniciar o mundo. Sofrerás, eu sei, com a crueldade e a injustiça dos homens. Em certas manhãs, acordarás sem ânimo. Talvez então te questiones sobre os motivos por que te trouxemos aqui. Trouxemos-te – é o que sinto – para que nos ajude a sermos melhores. Trouxemos-te porque te queremos melhor que nós.