Em 'O Continente' o autor traça um vivo retrato do início da história do Rio Grande do Sul. No século XVIII, com fronteiras ainda mal estabelecidas, a região é um verdadeiro campo de batalha. Na disputa pela terra, reina a lei do mais forte. Num cenário de violência e paixão, de intrigas familiares e aferradas lutas pelo poder, movem-se personagens de dimensões tocantemente humanas - como os antológicos Capitão Rodrigo e Ana Terra -, fiéis representantes da tradição de força e valentia do povo gaúcho.
O Continente (O Tempo e o vento #1) - Vol. 2
Erico Verissimo
Que Livro!
Entrei no O Continente II com a ânsia de saber mais sobre a família Terra Cambará e me deparei com a visão de um estrangeiro sobre a nossa terra e o povo de Santa Fé. Sim! O Continente II inicia com a narrativa do ponto de vista do Dr Winter, médico, imigrante alemão. Ele observa e analisa a cidade e as pessoas com sua visão de europeu. Ao mesmo tempo que se encanta com a terra, Dr Winter se espanta com as pessoas fechadas, teimosas, atrasadas e desconfiadas de tudo o que é novo ou vem de fora. Ao mesmo tempo que o médico sente saudade de sua pátria e pensa em voltar, uma inércia o impede de tomar a iniciativa de sair de Santa Fé. Afinal, são muitos quilômetros de estrada e mar, e ele vai se deixando ficar. Dr Winter sempre pensa em Trude (amor da juventude que se casou com outro) e na escolha que fez de não se prender a nada (nem trabalho fixo, nem propriedades, nem relacionamento) para manter sua liberdade. Mas voltando aos Terra Cambará, no Continente II tive vontade de esganar a Bibiana durante o livro todo! Seu apego aos bens materiais foi tão grande a ponto de destruir a vida do próprio filho ao incentivá-lo a se casar com Luzia, a herdeira do Sobrado. Este foi construído sobre o terreno onde antes ficava a casa da família de Bibiana e que foi tomada pelo avô de Luzia quando Pedro Terra não conseguiu pagar as dívidas. Luzia (ou Teiniaguá) é uma moça linda, mas cruel e com traços de uma personalidade um tanto psicopata ou algo do gênero. Não feliz em praticamente jogar o filho nos braços de uma esposa louca e má, Bibiana também vai morar no Sobrado e faz questão de viver em pé de guerra com a nora, colocando o filho na difícil posição de, constantemente, ter que escolher entre as duas. Por si só, Bolivar já tem seus problemas, pois parece um tanto bipolar: num momento que está eufórico, no seguinte cai em profunda depressão por nada. Logo no início do livro, durante uma conversa sob a figueira da praça, ele próprio reflete sobre seus altos e baixos de humor enquanto inveja a calma do primo Florêncio, que não se exalta por nada. Claro que esse casamento só poderia dar ruim. E deu! Culpa da Bibiana, em primeiro lugar. Aliás, essa Bibiana representa claramente a mente retrógrada e apegada ao passado, pois em mais de uma passagem ela rejeita veemente qualquer progresso. Quando se fala em telégrafo ou trem de ferro, ela só deseja que essas novidades não cheguem ou demorem pra chegar a Santa Fé. E também foi ela quem despertou um gatilho em mim. Já quase no final do livro, Licurgo, neto de Bibiana faz uma festa na qual alforria 30 escravos. O livro mostra bem que o interesse é meramente a promover o "clube republicano". Os escravos estão ali apenas como objeto político, ficam o tempo todo no quintal e não participam da festa "dos senhores". O único momento que entram no Sobrado é ao serem chamados para receber a carta de alforria. E por sinal é um momento de constrangimento. No fim da cerimônia, a primeira palavra vem da boca atrasada de Bibiana que exclama para abrirem as janelas para "deixar o bodum sair". Isso me doeu, pois lembrei da vó de minha avó, negra. A festa se passa em 1884 e mais ou menos nessa época, em algum lugar do Rio Grande do Sul, Maria da Glória, com apenas 12 anos, era obrigada a se casar com um branco (agora não é do livro, é minha história de família), do contrário ele mataria sua mãe. Imaginem o que essa criança passou. Cresci ouvindo minha avó contar a vida da avó dela e essas memórias verdadeiras ficaram bem gravadas na minha alma. Por isso festa no Sobrado mexeu comigo. Mas o livro não é desrespeitoso, apenas mostra a história como foi de fato. A vida dos negros foi doída, assim como a de todas mulheres (independente da cor), pois eram também tratadas como propriedade, primeiro dos pais, depois dos maridos. Mesmo a cruel Teiniaguá (Luzia), apesar de seus encantos e da riqueza, jamais foi dona de sua vida. Ela dizia que viver em Santa Fé era o mesmo que estar morta e, mesmo assim, nunca conseguiu ir embora, nem depois de ficar viúva. Aliás, o mesmo aconteceu com o Dr Winter, que no final do livro, já velho, repensa a vida e conclui que foi inútil não ter se apegado a nada, pois ele manteve sua liberdade, mas nunca a utilizou para nada. Essa consideração foi tocante para mim. Agora pensando na alforria pra inglês ver dada aos escravos durante aquela festa, no destino traçado para as mulheres já ao nascer e na liberdade nunca utilizada pelo Dr Winter, concluo que ninguém era livre de verdade em Santa Fé. Mas e nós? Somos livres? Bem, como vocês podem ver, esse é um livro que mexeu demais comigo e eu amei. Fiz uma viagem na história, nos costumes e no meu interior. É por isso que O Continente II é mais que uma obra de ficção, ele se consagra como Literatura Arte, um clássico sem sobra de dúvida. Já estou ansiosa pelo próximo livro da Saga: e que venha O Retrato I.
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