Brejo das almas -

    Carlos Drummond de Andrade

    Companhia das Letras
    2013
    80 páginas
    2h 40m
    ISBN-13: 9788535923285
    Português Brasileiro

    O segundo livro de poemas de Drummond é um dos conjuntos mais poderosos de versos da nossa lírica. Publicado em 1934, mesmo ano em que Carlos Drummond de Andrade deixaria Belo Horizonte em direção ao Rio de Janeiro - onde desempenharia funções no ministério de Gustavo Capanema -, Brejo das almas traz um conjunto consistente - e hoje perene - de poemas. Antecedendo o registro mais político e social de Sentimento do mundo e A rosa do povo - publicados na década de 1940 -, este livro mostra um Drummond interessado nos mistérios de eros, observando as engrenagens do amor e do desejo com uma ironia autodestrutiva e uma nonchalance tipicamente modernista. Enfileirando clássicos drummondianos como Boca, Soneto da perdida esperança, O amor bate na aorta e Hino nacional, entre outras pedras de toque do nosso modernismo, Brejo das almas tem a particularidade de trazer, pela primeira vez na obra do poeta mineiro, um soneto - algo que as hostes modernistas rechaçaram de forma enérgica. Mais uma demonstração de ironia e espírito livre deste grande poeta.

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    Bruno Henrique Alvarenga Souza12/04/2014Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Melancolia Drummondiana

    Publicado em 1934, no mesmo ano em que Drummond deixaria Belo Horizonte em direção ao Rio de Janeiro, "Brejo das almas", segundo livro do poeta itabirano, é um conjunto de versos tristes e desesperançados, em que a poesia é classificada como incomunicável e o indivíduo Carlos parece sofrer de um embotamento lânguido e insolúvel. É difícil imaginar que "Brejo das almas" anteceda "Sentimento do Mundo" (1940), livro em que Drummond procura no outro a resposta para as dúvidas e crueldades da vida. A curiosa escolha do título já parece nos dizer algo. "Brejo das almas" era o nome de um município mineiro (hoje chamado Francisco Sá) que, devido ao progresso, teve sua alcunha renomeada por nada significar e nenhuma justificativa oferecer. Essa explicação sobre o nome abre o livro e é seguida por "Aurora", poema em que 'O poeta está bêbedo, mas/ escuta um apelo na aurora:/ Vamos todos dançar/ entre o bonde e a árvore?'; mas a dança é inútil, já que 'A morte virá depois/ como um sacramento'. Esse tom desiludido permeia quase todos os poemas, e atinge seu ápice em "Soneto da perdida esperança", em que o poeta diz: 'Não sei se estou sofrendo/ ou se é alguém que se diverte/ por que não? na noite escassa'. Sentimento de não pertencimento em relação ao mundo e aos outros, tristeza incompreendida. A mulher é vista como geradora de ilusões e contribui para o pessimismo para com a vida. "Registro Civil" diz de uma que engole seus namorados; "Convite triste" nos propõe '... xingar a mulher,/ que está envenenando a vida/ com seus olhos e suas mãos/ e com o corpo que tem dois seios/ e te um embigo também'. Mulher destruidora, fonte de dor e dúvida. Mas, entre a maioria de poemas melancólicos e individualistas, aparece "Hino nacional", que parece destoar do conjunto. Nele, uma crítica ácida ao nacionalismo, ao embelezamento ideológico que nos diz que 'Precisamos louvar o Brasil', 'Precisamos adorar o Brasil'. A esses, Drummond responde: 'Precisamos, precisamos esquecer o Brasil/ (...)O Brasil não nos quer! está farto de nós!', e, num ímpeto em que a desilusão mais uma vez se faz presente, afirma a inexistência desse país de sonhos e questiona: 'Nenhum Brasil existe./ E acaso existirão os brasileiros?'. "Brejo das almas" é um capítulo amargo na obra do poeta mineiro, mas, a despeito de sua desconsideração pela maioria da crítica, que apenas o vê como uma ponte entre "Alguma Poesia" e "Sentimento do Mundo", esse brejo tem alma própria, uma alma que parece ter se perdido dentro de si mesma e que só vai se encontrar no outro, em seu próprio sentimento do Mundo.

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