“Se olho pra cima ainda vejo um nada caindo, um azul mais fraquinho, um risco ligeiro, quase uma ilusão caindo com pressa.” p. 11
Olhos de Bicho, de Ieda Magri é um romance fascinante, mesmo que um pouco difícil de explicar o enredo, mas tentarei esclarecer um pouco. Uma narrativa de lembranças profundas e marcadas pelas brechas do tempo deixadas por cada ser humano. História fragmentada que gira em torno de três personagens de um universo abundante: Emma, uma atriz que vive no bairro carioca do Catete; R., uma espécie de galã misterioso que usa as quartas-feiras para visitar a sua ex-mulher ‘Emma’; e Dietrich, uma suíça conhecida como ‘a portuguesa’ que vive no tradicional bairro da zona sul do Rio de Janeiro, Urca.
A narrativa se dá a partir de uma descrição – uma pessoa andando pela Rua do Catete e de repente vê um corpo que cai e que se transforma num esparramo de membros, de sangue, de vozes, de olhares curiosos que na verdade não sabem se olham para o chão ou para cima.
Pausa __________________
Emma está preste a estrear uma peça de teatro, mas ela começa a receber algumas ligações anônimas, do outro lado uma voz feminina, com instruções para que ela se mate. “Quem seria a uma hora daquelas? Atendeu com Louis, é você? E não pensou em nada enquanto, de pé, segurava com a mão esquerda o gancho e com a direita o fio do telefone, mordiscando os lábios pintados de vermelho e olhando pra junção da parede e da porta de saída. Ouviu: Instruções para se matar 1: lá no fundo está a morte, mas não tenha medo. É só você pensar na sua noite vazia, vendo um filme ruim na TV. Pausa. É só você pensar na solidão que recomeça a cada manhã. Pausa. É só você se dizer que não tem nada e nem a quem deixar. Que não tem nada a esperar de amanhã. Que mais quer? O fundo do mar é limpo e transparente. Cair sentada em seu fundo com os bolsos cheios de pedra deve ser agradável[...]” Emma recebe ao todo três instruções e isso faz com que ela só pense nesses telefonemas e devido a esses pensamentos, ela começa a surtar a ponto de imaginar que tem um bicho disforme que arranha a porta de seu apartamento “o bicho é grande e dele está cheio lá fora”. O surto é tão constante e intenso que no decorrer da história vamos percebendo a quantidade de perturbações que a Emma carrega e que essas ligações apenas catalisaram esses conflitos.
Faz-se necessário informar que a narrativa a partir desse momento vem através de fragmentos temporais – dias, meses, anos. Onde se faz mais presentes os personagens R., Dietrich, Louis e Gisela. É também o momento de uma semântica narrativa perfeita que nos faz perceber que o tempo presente já não nos dá garantia e por isso se dilata rumo ao passado.
A narrativa é de uma angústia muito contemporânea – a aflição que assombra cada página deste livro é calcada em peças do imaginário afetivo de nossos tempos. O bicho do título simplesmente é a demonstração dos nossos conflitos internos, e o que uni os personagens do livro é a incapacidade de se relacionarem um com o outro, pois não conseguem se relacionar com a sua própria desordem interior. Fechando cada capítulo em SOLIDÃO!
Alexandre de Almeida Floriano