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    Olhos de bicho -

    Ieda Magri

    Rocco
    2013
    160 páginas
    5h 20m
    ISBN-13: 9788532528483
    Português Brasileiro
    4
    17 avaliações
    Leram23Lendo1Querem37Relendo0Abandonos2Resenhas2
    Favoritos0Desejados37Avaliaram17

    Emma é uma atriz que vive no bairro carioca do Catete. R. costuma visitá-la às quartas-feiras. Dietrich vive num casarão na Urca, que se transforma numa espécie de parque de diversões às avessas para Louis e Gisele, quando dividem uma forma bastante peculiar de encarar a vida e seu “modo de usar”. Essas são algumas personagens do romance finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2014 de Ieda Magri, Olhos de bicho, com trama fragmentada composta por vozes narrativas dissonantes. Elas anunciam nada além da banalidade das próprias vidas na cidade do Rio de Janeiro, mas sabemos que o trabalho com a linguagem pode fazer do banal algo extraordinário, fora da ordem preestabelecida para a sintaxe, as ações humanas e os objetos. Graças a essa operação, em que a palavra comum vai em direção ao que se desconhece, o tempo presente já não dá garantias ao leitor e se dilata rumo ao passado, seja ele o dos anos 1940, quando Dietrich, seu marido e seu cachorro, de cujo nome ela já não se lembra, respiram os ares de uma Urca pouco urbanizada, seja o dos anos 1970, quando Emma e R. são estudantes de artes cênicas e ensaiam Perdoa-me por me traíres, de Nelson Rodrigues.

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    Alexandre Floriano31/12/2014Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    A sociedade de hoje não permite brechas, não permite nada, ela é o que dela se vê e, como a vida, nada dela se pode tirar, cada um caminha a olhar ou escutar os seus alaridos internos.

    “Se olho pra cima ainda vejo um nada caindo, um azul mais fraquinho, um risco ligeiro, quase uma ilusão caindo com pressa.” p. 11 Olhos de Bicho, de Ieda Magri é um romance fascinante, mesmo que um pouco difícil de explicar o enredo, mas tentarei esclarecer um pouco. Uma narrativa de lembranças profundas e marcadas pelas brechas do tempo deixadas por cada ser humano. História fragmentada que gira em torno de três personagens de um universo abundante: Emma, uma atriz que vive no bairro carioca do Catete; R., uma espécie de galã misterioso que usa as quartas-feiras para visitar a sua ex-mulher ‘Emma’; e Dietrich, uma suíça conhecida como ‘a portuguesa’ que vive no tradicional bairro da zona sul do Rio de Janeiro, Urca. A narrativa se dá a partir de uma descrição – uma pessoa andando pela Rua do Catete e de repente vê um corpo que cai e que se transforma num esparramo de membros, de sangue, de vozes, de olhares curiosos que na verdade não sabem se olham para o chão ou para cima. Pausa __________________ Emma está preste a estrear uma peça de teatro, mas ela começa a receber algumas ligações anônimas, do outro lado uma voz feminina, com instruções para que ela se mate. “Quem seria a uma hora daquelas? Atendeu com Louis, é você? E não pensou em nada enquanto, de pé, segurava com a mão esquerda o gancho e com a direita o fio do telefone, mordiscando os lábios pintados de vermelho e olhando pra junção da parede e da porta de saída. Ouviu: Instruções para se matar 1: lá no fundo está a morte, mas não tenha medo. É só você pensar na sua noite vazia, vendo um filme ruim na TV. Pausa. É só você pensar na solidão que recomeça a cada manhã. Pausa. É só você se dizer que não tem nada e nem a quem deixar. Que não tem nada a esperar de amanhã. Que mais quer? O fundo do mar é limpo e transparente. Cair sentada em seu fundo com os bolsos cheios de pedra deve ser agradável[...]” Emma recebe ao todo três instruções e isso faz com que ela só pense nesses telefonemas e devido a esses pensamentos, ela começa a surtar a ponto de imaginar que tem um bicho disforme que arranha a porta de seu apartamento “o bicho é grande e dele está cheio lá fora”. O surto é tão constante e intenso que no decorrer da história vamos percebendo a quantidade de perturbações que a Emma carrega e que essas ligações apenas catalisaram esses conflitos. Faz-se necessário informar que a narrativa a partir desse momento vem através de fragmentos temporais – dias, meses, anos. Onde se faz mais presentes os personagens R., Dietrich, Louis e Gisela. É também o momento de uma semântica narrativa perfeita que nos faz perceber que o tempo presente já não nos dá garantia e por isso se dilata rumo ao passado. A narrativa é de uma angústia muito contemporânea – a aflição que assombra cada página deste livro é calcada em peças do imaginário afetivo de nossos tempos. O bicho do título simplesmente é a demonstração dos nossos conflitos internos, e o que uni os personagens do livro é a incapacidade de se relacionarem um com o outro, pois não conseguem se relacionar com a sua própria desordem interior. Fechando cada capítulo em SOLIDÃO! Alexandre de Almeida Floriano

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    • 2 estrelas6%
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    Ieda Magri profile picture

    Ieda Magri

    Ieda Magri nasceu em Águas Frias (SC) e vive no Rio de Janeiro. É autora dos romances Uma exposição (Relicário, 2021), Ninguém (7Letras, 2016), Olhos de bicho (Rocco, 2013, bolsa Funarte de Criação Literária em 2010 e finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2014), Tinha uma coisa aqui (7Letras, 2007) e do ensaio O nervo exposto: João Antônio, experiência e literatura (Lume, 2013). É doutora em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professora de Teoria da Literatura nos programas de graduação e de pós-graduação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

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    Ieda Magri