Sempre ouvi dizer que, perante a morte iminente, toda a nossa vida se passa diante dos nossos olhos como um sonho, uma miragem tênue no horizonte. Esqueceram de me contar que não é a morte que traz esse déjà vu, e que essas memórias surgem por algo mais simples, mais corriqueiro: a apreensão.
Quem diria que a tensão dos momentos finais de seu casamento, instantes antes da frase tão memorável, que ressoa na cabeça das mulheres mais apaixonadas, “eu aceito”, traria sentimentos tão nostálgicos, e pior: despertaria dúvidas, um turbilhão de pensamentos negativos sobre o seu futuro?
Em Medo da Chuva, da querida Carolina Utinguassu, presenciamos de perto – por que não dizer de dentro? – toda a aflição de um noivo, José Henrique, prestes a se comprometer pelo laço do matrimônio, e que, após refletir sobre toda a sua vida, desde os tempos de sacerdócio até aquele momento que parecia se prolongar por horas a fio, resolve abrir mão daquilo que muitos julgariam como felicidade. O que muitos não sabem, ou simplesmente ignoram, é que ninguém nesse mundo é feliz tendo amado só uma vez.
O conto, inspirado na música de mesmo nome, do grande Raul Seixas, se desenvolve deliciosamente bem. Com parágrafos milimétricamente calculados, podemos sentir e viver toda a angústia e alegria do protagonista. E também podemos notar o quanto a sociedade está enclausurada por seus dogmas e conceitos, e, principalmente, como a perplexidade se mostra aparente quando, finalmente, nos desprendemos dessas estimas e resolvemos mudar; o quanto a mudança se faz necessária, e tudo que estamos perdendo quando ela surge, mesmo que por um buraco apenas, e a deixamos passar.
Por se tratar de contos, não posso entrar em detalhes para não perder tanto o impacto da obra, mas... com uma proposta inteiramente nova - ao menos eu nunca havia visto antes- o livro Contos de Som e Silêncio apresenta diversas histórias inspiradas em músicas de grandes nomes. Outro conto que me chamou bastante a atenção e que, de certa forma, me marcou foi A Novidade, de Alexandre Braoios.
Ele retrata claramente o que ainda vivenciamos: o espanto diante de tudo o que é novo, a assombração por trás de qualquer inovação.
Duas pessoas de personalidades diferentes se veem em uma mesma situação. A situação, entretanto, fora apresentada de maneiras opostas para ambas, mas as duas deveriam dar o mesmo fim para o problema – ou solução que se apresentaria. Quando deparados com uma criatura surreal, começa um conflito gritante por moralidade, talvez.
Assim como na época atual, o novo impressiona e cativa uns, mas, na maioria dos casos, incute um terror animalesco – quando, apesar de todo o nosso medo, tiramos forças para enfrentar o perigo e seguirmos em frente.
Em uma breve reflexão, o conto mostra o perigo de se admirar ou não aceitar a novidade que surge. A mensagem apresentada no texto é justamente para que acolhamos a tudo e todos, e que o diferente também é bom.