Classificado como 4,5
"O dilema que eu enfrentava no momento era um que todo pai enfrenta mais cedo ou mais tarde: você quer defender seu filho, claro, quer protegê-lo mas não pode fazer isso com muita veemência, e acima de tudo não com muita eloquência - você não pode encurralar o outro. os educadores, os professores, permitirão que você fale, mas depois irão se vingar do seu filho."
Fui imediatamente fisgada pela sinopse deste livro, que prometia uma leitura recheada de tensão. Aprecio thrillers psicológicos, e assim que o exemplar chegou comecei a folheá-lo ainda no portão de casa, e terminei em dois dias. Geralmente, costumo classificar um livro como ótimo, quando o autor consegue fazer com que eu sinta ódio, raiva, amor, empatia, ou qualquer outro sentimento genuíno por algum personagem ou pelo enredo. Koch conseguiu elevar meus sentimentos a um novo patamar.
O Jantar é narrado por Paul, irmão de Serge Lohman, candidato a primeiro ministro que mantém sempre um sorriso no rosto.
Paul e Serge, acompanhados de suas respectivas esposas, se encontram em um restaurante da moda para decidir sobre o futuro de seus filhos. No começo Paul age com indiferença, e até uma certa dissimulação sobre o ato que seu filho e o sobrinho teriam cometido.
Eles iniciam o tenso jantar sobre trivialidades, como os filmes que estão em cartaz, e sobre suas férias de verão. Conforme o prato principal vai sendo servido, Serge chega no cerne da questão, e a partir daí a conversa ganha contornos cada vez mais obscuros. Até onde cada pai iria para defender seu filho?
A narrativa me fisgou na primeira linha. É visível a habilidade que o autor tem em engabelar o leitor durante o enredo. Até as partes onde Paul narrava sobre a mania azucrinante que o gerente tinha de apontar para cada prato com o dedo mindinho, e explicar sobre cada alimento, se tornam interessantes, e eu não conseguia deixar o livro de lado. Me peguei o tempo todo aflita para saber aonde aquela história iria dar (se eu roesse unhas, teria acabado com todas as 10 ao mesmo tempo).
Em nenhum momento no início, o autor deixa claro o que os meninos fizeram. Fiquei pensando em diferentes teorias, e errei todas.
Paul é um narrador nada confiável, por assim dizer. Comecei acreditando em cada palavra e frase que ele proferia, mas conforme os fatos eram expostos, cada vez menos eu confiava nele.
Serge é pintado como se fosse a ovelha negra da família, um manipulador pedante que faz tudo pelo bem da sua campanha política. Mas será que ele ficaria calado após saber o que o filho tinha cometido?
Conforme as páginas avançavam, Paul esclarecia um pouco mais do seu passado, e qual ato terrível seu filho e o sobrinho tinham cometido.
A reação inicial foi choque. Logo depois eu senti medo. Medo em ver como o ser humano é capaz de banalizar a vida humana. Fui acometida por um grande sentimento de descrença. Será que existem pessoas como Paul, Claire, Michael e Rick? É lógico que sim, mas eu prefiro tentar acreditar que não.
O enredo que começou com um um simples encontro, sofre uma reviravolta de deixar qualquer jantar indigesto. Eu não sei o que mais me deixou revoltada: se foi o ato em si praticado pelos meninos (que infelizmente é realidade nos nossos dias de hoje), ou se foi a forma como os pais protegem e tentam justificar tal ato.
Como sou mãe, não pude deixar de me questionar o tempo todo se eu passaria por cima dos meus princípios e crenças para defender meus filhos. Agora eu tenho certeza que não.
O Jantar foi uma leitura que me deixou perplexa, indignada e revoltada. No final, a frase: "tal pai, tal filho" ficou martelando na minha mente. Até que ponto os pais são responsáveis pelas atitudes dos filhos? Minimizar e defender os filhos não seria uma maneira de encorajar um comportamento errado?
Cru, realista e provocante. Um livro que vale a pena ser devorado.