Coração tão branco -

    Javier Marías

    Martins Fontes
    1995
    320 páginas
    10h 40m
    ISBN-10: 8533604378
    Português Brasileiro

    Juan é intérprete e tradutor, como Luisa, com quem está recém-casado. Ouvir e contar é o seu ofício. Ouvir, para ele, é quase uma obsessão, como uma forma de fazer existir o que acontece. Mas devemos contar sempre o que ouvimos? Não é melhor, às vezes, calar, guardar segredo, para que o passado não permaneça presente? E não é melhor, às vezes, não ouvir, para não saber e, assim, nos proteger? Foi ouvindo sem querer que descobriu que sua tia não morrera de morte natural, mas se suicidara. E que, antes dela, outra esposa de seu pai também morrera tragicamente. Ouvir essas revelações não buscadas agravou o mal-estar que Juan sentia desde o dia de seu casamento com Luisa, desde que seu pai, durante a recepção no Cassino, chamou-o para uma conversa reservada e pronunciou a palavra fatal, segredo: “Quando você tiver segredos ou se já os tiver, não os conte. Boa sorte.”

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    Alexandre Figueiredo27/04/2019Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Digressões sobre segredos

    O que acontece quando você se depara com um autor que te cativa de uma maneira completamente diferente? Foi essa pergunta que fiz a mim mesmo ao ler mais um romance de Javier Marías. E a resposta, muito simples, veio logo após terminar este livro: surpresa. Neste "Coração tão branco", muitas vezes indicado para conhecer este autor espanhol, as palavras são protagonistas. O estilo de Marías, muito peculiar devido ao seu gosto pelas digressões que percorrem as páginas, pode não agradar certos leitores. Mas há beleza na maneira como ele coloca suas ideias. Há beleza na maneira como suas palavras são dispostas. E há, ainda, beleza nos questionamentos sobre temas caros ao autor, como o segredo, a morte, e, no caso específico deste livro, o relacionamento a dois. A história de Juan, o protagonista, e o mistério que percorre sua família tornam-se apenas a base para pulos mais filosóficos. O trabalho de Juan como tradutor; a maneira como ele conhece Luisa, sua esposa; sua relação com Berta, amiga de longa data; o papel de seu pai, Ranz, em sua vida; tudo, cada detalhe de cada núcleo é muito bem explorado. Em cada parte da vida do protagonista somos convidados a examinar, julgar, questionar e entender como a nossa própria vida funciona. Por que o segredo é necessário? Por que devemos contar algo que sabemos que pode afetar outra pessoa? De que maneira um segredo afeta nossa vida, por menor e mais inofensivo que ele seja? O que se perde e o que se ganha quando se vive a dois? Em “Coração tão branco” todos esses questionamentos são pulsantes. A cada página virada tinha a sensação de que podia visualizar a história na minha frente, como se estivesse vendo um filme, mesmo com a raríssima aparição de diálogos durante a narrativa. Não são todos os momentos, claro, mas em algumas partes tive a sensação de fazer parte desta história, de ser íntimo de Juan, ser seu confidente. Livro e autor recomendadíssimos!

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