A narrativa breve é uma arte singular. O conto é descendente de uma tradição muito diferente do romance e da novela. O bom conto não se difere apenas em sua extensão. Ele torna-se uma narrativa distinta quando consegue colocar em prática três características básicas em equilíbrio: uma forma, uma intensidade e uma inquietação.
Javier Marías, provavelmente o maior escritor europeu vivo, sabe que a Espanha não tem tradição na nobre arte da narrativa breve (e que, ironicamente, hispano-americanos como Jorge Luis Borges, Julio Cortázar e Juan Carlos Onetti são mestres perdidos de outras latitudes). Partindo desse princípio, o autor nunca dedicou muita energia ao gênero. Mas, apesar de reconhecer sua posição menor em relação aos grandes nomes do conto, em sua maioria russos, estadunidenses e latinos, o eterno candidato ao Nobel tem sim algo a oferecer aos leitores nas pequenas narrativas deste singelo Quando fui mortal.
O livro é composto por 12 contos, sendo que 11 deles foram escritos por encomenda - o que não afeta consideravelmente os textos, antes que os puristas pensem algo. O próprio autor há muito tempo já deu uma maneira de classificar, acertadamente, a própria narrativa breve em duas categorias: os contos aceitos e os contos aceitáveis. Essa distinção, que ele usa em outros dos seus livros de contos não publicados aqui no Brasil, cabe muito bem para a divisão que pretendo fazer aqui. Por isso, vamos à primeira categoria.
Os contos aceitos por mim são seis. O médico noturno, texto que abre a coletânea, por exemplo, é interessante. Repleto de suspense, aborda a descoberta do narrador sobre um médico que tem a estranha especialidade de enviuvar mulheres que possuem péssimos relacionamentos amorosos. Já Binóculo quebrado e Domingo de carne são contos completamente diferentes entre si, mas tratam exatamente da mesma questão, aquela que mais instiga Marías a escrever literatura: o saber sem querer saber. O segundo conto apresenta um apostador que narra a sua costumeira ida ao hipódromo e, ao ter seu binóculo quebrado por outro suposto apostador, que é um sujeito do tipo brutamontes e está ali apenas por motivos profissionais, acaba descobrindo um segredo desse estranho homem, o que gera uma cadeia de acontecimentos com consequências (possivelmente) nefastas. Já o terceiro conto mostra o clássico narrador voyeur de Marías que, também com um binóculo, acompanha a movimentação de uma praia espanhola da sacada de seu hotel. Nessa atividade banal, ele foca a lente em um grupo de pessoas na praia e, sem mais nem menos, percebe a morte de uma delas. Como se não bastasse, nosso narrador sabe quem cometeu o assassinato e essa revelação é um dos pontos altos dessa narrativa. Dos três contos restantes, dois deles possuem fantasmas. Um deles, Quando fui mortal, tem um narrador de outra dimensão que nos conta sobre o seu período de vida terrena e do martírio que é estar do outro lado. É, de longe, a narrativa mais reflexiva, oferecendo o melhor Marías do livro. Já o segundo texto sobre fantasmas, Não mais amores, é praticamente um conto de fadas sobre uma mulher que lia livros para um ser fantasmagórico (e em que circunstâncias vocês só podem descobrir lendo o conto). Meu último destaque dessa leva é, na verdade, uma novela. Sangue de lança tem vários personagens e uma trama policialesca que envolve a morte violenta de um amigo homossexual (e essa é uma informação relevante para a história, por isso a destaco aqui) do narrador que, de acordo com os investigadores, morreu ao lado de uma mulher. Entre mistérios e mentiras, descobrimos somente no final a verdadeira motivação do crime.
Falarei dos aceitáveis? Sinceramente, não. Os seis contos restantes, sendo eles A herança italiana, Na viagem de lua-de-mel, Figuras inacabadas, Todo mal volta, Menos escrúpulos e No tempo indeciso pecam por, de uma forma ou de outra, não colocarem em equilíbrio as características básicas de um bom conto - para mim, claro - elencadas no princípio. Nesse grupo, me parece que o Marías romancista ficou preso em um local estranho para ele, que parecia necessitar de mais espaço para desenvolvimentos melhores ou mais agradáveis.
Em Quando fui mortal conhecemos um Javier Marías diferente do habitual. Com menos espaço, o romancista sente dificuldades para elaborar as suas sempre precisas reflexões sobre os sentimentos humanos. Apesar disso, os narradores da observação de Marías conseguem o de sempre: tornar os leitores [*****]mplices de suas histórias. E no fim não é esse um dos objetivos da literatura?