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    Quando fui mortal -

    Javier Marías

    Companhia das Letras
    2006
    168 páginas
    5h 36m
    ISBN-10: 8535908706
    Português Brasileiro
    3.8
    30 avaliações
    Leram53Lendo0Querem72Relendo1Abandonos1Resenhas3
    Favoritos1Desejados72Avaliaram30

    Um guarda-costas que preferia ver seu patrão morto, um médico aparentemente especializado em misteriosas - e letais - visitas noturnas, uma aspirante a atriz pornô tentando quebrar o gelo com seu parceiro, um falsificador de quadros movido por uma ética muito peculiar e alguns mortos - além de fantasmas - povoam os doze contos de Quando fui mortal. Javier Marías foi vizinho de Vladimir Nabokov nos Estados Unidos. Como o espanhol tinha um ano de idade, entretanto, e foi para lá com o pai, que dava aulas numa universidade americana, não consta que tenha sido influenciado por conversas com o russo expatriado - e tampouco visitado por seu fantasma. Essa história, verdadeira, não está em Quando fui mortal, mas bem que poderia. O que não falta nos doze contos do livro são encontros inesperados cujos desdobramentos são ainda mais surpreendentes. As vidas sobre as quais Marías se debruça e observa, seja como fantasma, seja como mortal, são repletas de pequenos episódios aparentemente desimportantes, mas que na verdade se mostram cheios de encantamento e possibilidades. Como o fantasma do conto que dá título ao livro, Marías paira sobre os seus protagonistas, observados com uma ironia que quase disfarça o olhar carinhoso, revisitando acontecimentos e diálogos e conferindo a eles, assim, mais sentido e vigor. Há muitos mortos no livro, evidentemente, mas o fundamental para o autor não é a morte: é a vida, particularmente a vida pequena e cotidiana.

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    Alexandre Figueiredo picture
    Alexandre Figueiredo03/02/2022Resenhou um livro
    3.5 (Bom)

    Narrativas da observação

    A narrativa breve é uma arte singular. O conto é descendente de uma tradição muito diferente do romance e da novela. O bom conto não se difere apenas em sua extensão. Ele torna-se uma narrativa distinta quando consegue colocar em prática três características básicas em equilíbrio: uma forma, uma intensidade e uma inquietação. Javier Marías, provavelmente o maior escritor europeu vivo, sabe que a Espanha não tem tradição na nobre arte da narrativa breve (e que, ironicamente, hispano-americanos como Jorge Luis Borges, Julio Cortázar e Juan Carlos Onetti são mestres perdidos de outras latitudes). Partindo desse princípio, o autor nunca dedicou muita energia ao gênero. Mas, apesar de reconhecer sua posição menor em relação aos grandes nomes do conto, em sua maioria russos, estadunidenses e latinos, o eterno candidato ao Nobel tem sim algo a oferecer aos leitores nas pequenas narrativas deste singelo “Quando fui mortal”. O livro é composto por 12 contos, sendo que 11 deles foram escritos por encomenda - o que não afeta consideravelmente os textos, antes que os puristas pensem algo. O próprio autor há muito tempo já deu uma maneira de classificar, acertadamente, a própria narrativa breve em duas categorias: os contos aceitos e os contos aceitáveis. Essa distinção, que ele usa em outros dos seus livros de contos não publicados aqui no Brasil, cabe muito bem para a divisão que pretendo fazer aqui. Por isso, vamos à primeira categoria. Os contos aceitos por mim são seis. “O médico noturno”, texto que abre a coletânea, por exemplo, é interessante. Repleto de suspense, aborda a descoberta do narrador sobre um médico que tem a estranha especialidade de “enviuvar” mulheres que possuem péssimos relacionamentos amorosos. Já “Binóculo quebrado” e “Domingo de carne” são contos completamente diferentes entre si, mas tratam exatamente da mesma questão, aquela que mais instiga Marías a escrever literatura: o saber sem querer saber. O segundo conto apresenta um apostador que narra a sua costumeira ida ao hipódromo e, ao ter seu binóculo quebrado por outro suposto apostador, que é um sujeito do tipo brutamontes e está ali apenas por motivos profissionais, acaba descobrindo um segredo desse estranho homem, o que gera uma cadeia de acontecimentos com consequências (possivelmente) nefastas. Já o terceiro conto mostra o clássico narrador voyeur de Marías que, também com um binóculo, acompanha a movimentação de uma praia espanhola da sacada de seu hotel. Nessa atividade banal, ele foca a lente em um grupo de pessoas na praia e, sem mais nem menos, percebe a morte de uma delas. Como se não bastasse, nosso narrador sabe quem cometeu o assassinato e essa revelação é um dos pontos altos dessa narrativa. Dos três contos restantes, dois deles possuem fantasmas. Um deles, “Quando fui mortal”, tem um narrador de outra dimensão que nos conta sobre o seu período de vida terrena e do martírio que é estar “do outro lado”. É, de longe, a narrativa mais reflexiva, oferecendo o melhor Marías do livro. Já o segundo texto sobre fantasmas, “Não mais amores”, é praticamente um conto de fadas sobre uma mulher que lia livros para um ser fantasmagórico (e em que circunstâncias vocês só podem descobrir lendo o conto). Meu último destaque dessa leva é, na verdade, uma novela. “Sangue de lança” tem vários personagens e uma trama policialesca que envolve a morte violenta de um amigo homossexual (e essa é uma informação relevante para a história, por isso a destaco aqui) do narrador que, de acordo com os investigadores, morreu ao lado de uma mulher. Entre mistérios e mentiras, descobrimos somente no final a verdadeira motivação do crime. Falarei dos aceitáveis? Sinceramente, não. Os seis contos restantes, sendo eles “A herança italiana”, “Na viagem de lua-de-mel”, “Figuras inacabadas”, “Todo mal volta”, “Menos escrúpulos” e “No tempo indeciso” pecam por, de uma forma ou de outra, não colocarem em equilíbrio as características básicas de um bom conto - para mim, claro - elencadas no princípio. Nesse grupo, me parece que o Marías romancista ficou preso em um local estranho para ele, que parecia necessitar de mais espaço para desenvolvimentos melhores ou mais agradáveis. Em “Quando fui mortal” conhecemos um Javier Marías diferente do habitual. Com menos espaço, o romancista sente dificuldades para elaborar as suas sempre precisas reflexões sobre os sentimentos humanos. Apesar disso, os narradores da observação de Marías conseguem o de sempre: tornar os leitores [*****]mplices de suas histórias. E no fim não é esse um dos objetivos da literatura?

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    Avaliações

    3.8 / 30
    • 5 estrelas23%
    • 4 estrelas47%
    • 3 estrelas20%
    • 2 estrelas10%
    • 1 estrelas0%
    Javier Marías Franco profile picture

    Javier Marías Franco

    Escritor, tradutor e editor espanhol. Nasceu em Madrid em 20 de setembro de 1951 e faleceu em 11 de setembro de 2022 devido a uma pneumonia bilateral em decorrência da covid-19. Considerado o principal escritor espanhol da segunda metade do século XX e início do século XXI, ocupava a cadeira R da Real Academia Española (RAE) desde 2008. Formado em Filosofia e Letras, com especialização em Filologia Inglesa, pela Universidade Complutense de Madrid, foi professor de Literatura Espanhola e Teoria da Tradução na Universidade de Oxford (1983-1985), no Wellesley College de Massachusetts (1984) e na Universidade Complutense de Madrid (1986-1990). É autor de contos, ensaios, crônicas e 16 romances, entre eles "Coração tão branco" (1992), "Amanhã, na batalha, pensa em mim" (1994), "Seu rosto amanhã" (2002-2007), "Os enamoramentos" (2011), "Assim começa o mal" (2014), "Berta Isla" (2017) e "Tomás Nevinson" (2021). Era Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras da França.

    88 Livros
    59 Seguidores

    Javier Marías Franco