Jappe sempre apresenta provocações interessantes aos movimentos de Esquerda. Quando falou sobre o situacionismo, ressaltou que a busca pela "vida e não pela sobrevivência" fazia muito sentido nos países em que, em certo grau, a sobrevivência já está garantida. Nesse livro, Jappe critica as afirmações de violência feitas pelo insurreicionalismo, principalmente na figura do Comitê Invisível.
Jappe parte da observação de que a Esquerda, principalmente a institucional, não consegue perceber que a forma-Estado é caracterizada pela busca do monopólio da violência, e que as formas modernas de repressão incluem apontar para o que seriam maneiras legítimas de política - ou seja, que só se pode fazer política pelos meios institucionais. A Esquerda abraça isso, e traça uma linha de fronteira para isolar seus elementos mais radicais que cometem atos ilegais. Jappe percebe esses atos como realmente efetivos na produção de lutas e resistências, e até mesmo de reformas, e percebe a mediação como uma forma do Estado pacificar a resistência.
Mas ele observa uma espécie de "degeneração" do ilegalismo na figura do Comitê Invisível ou do Tiqqun, que, em sua visão, pecam por proporem a dissolução da civilização em um ato violento, não-criativo ou de deserção, e por acreditarem, de maneira ingênua, que seria possível propor uma aliança entre todos os elementos que "odeiam o estado atual das coisas". Essas duas posições são vistas por Jappe como representantes do Comitê Invisível, o que é uma redução complicada. Mas Jappe coloca alguns pontos fundamentais que têm a ver com uma certa ausência de projeto por parte do insurreicionalismo. Por exemplo, a noção de deserção corre o enorme risco de produzir efeitos tão-somente para aqueles que desertam e que, ao ver que o resto da população não o fez, passariam a defender seus interesses individuais como o fazem as FARC. Jappe também se preocupa que a ausência de projeto para as minorias faça com que, com a explosão de insurreições que virá, essas se tornem "bodes expiatórios" da repressão estatal.
Apesar de exageradas e se basearem em uma leitura mais superficial do Comitê Invisível ou do Tiqqun, as críticas de Jappe nesse livreto são importantes para pensarmos os limites da tática e em como expandir o impacto das insurreições para além do momento em que ocorrem.