Noventa dias - Diário de uma recuperação

    Bill Clegg

    Companhia das Letras
    2013
    152 páginas
    5h 4m
    ISBN-13: 9788535923452
    Português Brasileiro

    Depois de narrar seu mergulho insano nas profundezas da droga, Bill Clegg descreve agora a batalha cotidiana para abandonar o vício do crack e do álcool. Ele está de volta a Nova York, após passar uma temporada numa clínica de desintoxicação, e tem um único objetivo na vida; completar noventa dias - apenas três meses - sem se drogar. Para o comum dos mortais, parece coisa simples. Para o viciado, é um trabalho de Sísifo, uma luta diária contra a fissura pela droga, contra a força magnética avassaladora que o leva a procurar traficantes e antros de junkies. O autor narra o drama monstruoso de sua vida, que a qualquer momento pode se transformar em tragédia. São muitas as recaídas, é insaciável a vontade da droga, é forte a tentação de acabar de vez com a vida, é penoso o retorno à superfície. Para Clegg, ficar sóbrio não depende apenas da tão alardeada força de vontade - ele precisa do suporte e da convivência de seus colegas de recuperação. O árduo caminho de volta passa pelo apoio de um 'padrinho' a quem possa recorrer a qualquer momento de fraqueza, e pelo comparecimento a reuniões de viciados - duas, três vezes por dia -, em que o relato de cada um reforça a disposição dos outros de permanecer limpo. São pessoas em situação igualmente precária, como Polly, a passeadora de cães com quem ele convive todos os dias e retrata com simpatia quase amorosa. É gente cujo maior ato de heroísmo, recebido com aplauso por todos os presentes, é anunciar na reunião que completou mais um dia sóbrio. Neste diário de franqueza pungente, por vezes inacreditável, Bill Clegg expõe as idas e vindas de uma jornada que não tem fim, que recomeça todos os dias, de uma vida que avança sobre o fio da navalha.

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    Luiz Carlos Gomes Jr.09/02/2016Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Na vida, cada dia é uma batalha.

    Lembro que li "Retrato de um viciado quando jovem", a primeira obra de Bill Clegg, há três ou quatro anos, durante um vôo com quase cinco horas de duração. Estava com uma ressaca de cachaça horrível do dia anterior e comprei o livro numa dessas livrarias de aeroporto. Não conhecia o autor, nem tinha qualquer referência da obra. O critério de escolha foi muito simples: um livro que eu pudesse ler durante a viagem até o destino final. A leitura foi, literalmente, uma viagem. A desgraçada da minha ressaca me ajudou incrivelmente a sentir as náuseas, as paranoias e as angústias do autor, que narra um período mais crítico da sua dependência química e uso de "crack". Sentia os fracassos dele como se eu estivesse vivendo aquelas situações. Livrei-me das fissuras, porque não sou um dependente químico. Não recomendo a leitura com ressaca. Só estou descrevendo como ela combinou-se com o realismo da narrativa, o que me levou a sentir com mais profundidade as situações vividas pelo autor. O primeiro livro é genial. Vale a pena conferir para entender como é a luta de um viciado para manter-se vivo. Apreendemos com o autor que, para um viciado manter-se vivo, não existe um momento sequer que ele não pense no próximo trago (consumo da droga). Pode parecer contraditório dizer que a droga é que mantem um drogado vivo. Mas é isso mesmo. A luta de um dependente químico é tanto psicológica quanto biológica. A droga já faz parte do corpo do dependente e, sem ela, um dependente não é capaz de fazer as coisas mais simples do dia a dia. Recomendo a leitura do "Retrato de um viciado quando jovem" antes de "Noventa dias: um diário de uma recuperação". Aliás, eu recomento a leitura delas em sequência, porque "Noventa dias: diário de uma recuperação", o segundo livro de Bill Clegg, é a continuação da primeira e, como o subtítulo já indica, narra a fase de recuperação. Noventa dias é uma referência padrão que os grupos de recuperação utilizam para considerar que um viciado em droga saiu da fase mais crítica da dependência. Eu li este livro quase quatro anos depois da primeira. Agora minha ressaca já não era de bebida, mas um ressaca de dois anos dedicados à minha pesquisa de mestrado. Este foi o segundo livro "não obrigatório" que escolhi para ler depois de finalizar a redação da minha dissertação. O segundo livro já não tem a mesma intensidade do primeiro. Ele demonstra como é difícil a luta para livrar-se da dependência química. Recomendo-o também vivamente a todos, especialmente aos que estão nessa luta ou tem algum parente ou amigo nela. Minha admiração pelo autor continuou a mesma do primeiro livro. O que mais me agradou neste segundo livro foi a pouca ou quase nenhuma referência a Deus ou qualquer esperança de salvação e libertação da dependência química em forças transcendentais ou místicas. O autor reconhece que elas podem ajudar, mas o seu propósito com o livro é outro. Do meu ponto de vista, o livro é para quem suporta o peso da vida e da existência e está disposto a compreender como é a luta de um viciado em droga através da ajuda dos amigos, familiares, médicos e, principalmente, a ação solidária e cooperativa dos outros dependentes ou ex-dependentes de droga. O autor nos ensina que a vida de um drogado é uma renúncia gradual e lenta da vontade de viver, mas também que a dependência retira quase toda a autonomia do homem. Entre estar com os amigos, a namorada ou namorada, a família, ler um livro, etc. um dependente sempre irá preferir a droga. No final da obra, o autor manda sua mensagem aos que ainda estão lutando contra o vício das drogas. Leia e descubra.

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