Ao que se espera de ‘A parede no escuro’ (uma narrativa poética no estilo de se apresentar, repleta de metáforas), a obra vai bem mais longe. A partir da constante troca de perspectiva, o autor consegue explorar cenários, histórias e os traumas dos principais personagens na medida em que o arco do atropelamento nos mantém de pé à espera. Mas o livro se preocupa em não estar cem por cento preso ao caso, como vemos a partir de Emanuel e suas inúmeras tentativas de fazer uma confissão, todas mal sucedidas. É uma obra primariamente psicológica, seja relacionado às relações interpessoais, como nos ambientes de trabalho e familiar, ou a fundamentos existenciais.
Os protagonistas são praticamente controlados pelo sentimento de culpa, insuficiência ou pelos resquícios de uma relação tóxica com seus respectivos pais. É nisso que o ritmo da narrativa é consagrado, pela sua profundidade prática. Estamos sempre ali, dentro da mente de um deles, ouvindo o som da dúvida, decodificando o medo, a deliberação íntima que nos faz sofrer no escuro, em silêncio.
É claro que a cada um pertence um cotidiano, que se mantém a demonstrar seu viés. É mais que apenas uma nova perspectiva do diálogo em tempo real. É um viés da narrativa que acrescenta, em alguns momentos, um teor político ao que se pensa e se diz, mas acima de tudo ao que se sente.
E numa síntese mais ousada, eu diria que a obra cumpre muito bem o papel de explorar o que se gera a partir do trauma, e dos gatilhos que, apesar de nos salvarem, às vezes vêm acompanhados de grandes perdas. Excelentíssima obra!