"LIVRO DISSECA O BOLSA FAMÍLIA E DERRUBA MITOS SOBRE O PROGRAMA - (Do meu blog) Sim, eu já sabia que o Bolsa Família nem cosquinha faz nos interesses essenciais dos poucos que muito têm no Brasil, um dos países com desigualdade mais depravada no planeta. Assim como tinha consciência de que só a combinação indecorosa de estupidez com egoísmo é capaz de se opor a um programa que permite a milhões de brasileiros não padecerem de desnutrição ou mesmo morrerem de fome. Aprendi muito mais, ao ler as 157 páginas de “O Bolsa Família e a social-democracia”, livro da jornalista Débora Thomé que a Editora FGV apresenta pelo selo FGV de Bolso, na Série Sociedade e Cultura" MÁRIO MAGALHÃES
O Bolsa Família e a Social-Democracia -
Débora Thomé
Livro introdutório, que trata o assunto com clareza e com profundidade adequada.
É um bom livro introdutório ao Bolsa Família. Bom, tanto para quem quer continuar estudando o assunto após sua leitura, quanto para quem apenas quer ter uma base qualificada para conhecer o programa (para se desprender da discussão rasa do “programa de esquerda ‘boazinha’ que eliminou a pobreza” versus “dar dinheiro pra vagabundo não trabalhar”). É profundo o suficiente para que se entenda o programa e o contexto no qual ele está inserido, sem ser profundo demais para ser maçante ou para ser uma leitura difícil para pessoas sem conhecimento prévio do assunto, ou sem familiaridade com conceitos de economia ou política. É útil tanto para quem tem interesse simplesmente no programa em si, quanto para quem tem interesse mais diversificado em como podem ser os programas de proteção social. Pode-se dizer que livro apresenta o conceito de proteção social e de socialdemocracia, utilizando o Bolsa Família como elemento de estudo. Ou que o livro procura explicar o Bolsa Família contextualizando o programa na história da social democracia no mundo, da política e da economia do Brasil. Por isso, é adequado independentemente de onde está a ênfase maior do interesse do leitor. No capítulo 1, o livro introduz a socialdemocracia. Diferencia esse modelo do socialismo, explica as origens das ideias de proteção social, a evolução de um modelo que pretendia defender algumas classes (em geral o proletariado urbano) até se tornar um modelo universalista. Apresenta modelos de proteção social diversos, procurando identificar a ideia por trás deles, e compara modelos aceitos como socialdemocratas com modelos definidos como liberais ou de outra vertente de pensamento. Coloca diversas definições, analisando e justificando cada uma delas, buscando dar uma visão mais ampla ao leitor do assunto e de sua complexidade. Como já dito anteriormente, faz isso sem ser demasiadamente denso e sem exigir conhecimento anterior. O segundo capítulo conta a história das políticas de proteção social no Brasil. Desde o momento que era concentrada no Estado (de alguma forma pode-se dizer que nos anos 30 e 40, até a demanda pela existência dessas políticas vinham do Estado, e não dos beneficiários), até o momento quando a sociedade passa a exigir a existência e eficácia dessas políticas. Explica brevemente as mudanças que ocorreram, e as principais causas dessas mudanças, e interpreta o comportamento da população no contexto dos diversos períodos históricos. Na sequência, já no terceiro capítulo, o programa analisa a socialdemocracia no Brasil. Afirma que esse conceito, embora presente na Constituição de 1988, só passou a ser prático no governo Fernando Henrique Cardoso. A partir daí, sempre apresentando fatos históricos, busca interpretar sua evolução no país. Analisa as dificuldades que se apresentaram ao governo FHC para aprofundar as redes de proteção social, as alternativas utilizadas por esse governo para, mesmo diante das restrições de um ajuste fiscal rigoroso e diversos percalços ao longo da condução da economia do país. Procura interpretar a grande ampliação da socialdemocracia no país ocorrida no governo Lula, tanto a partir de uma questão de prioridade (onde o PT, conforme a autora, mais à esquerda, arriscou mais para aumentar essa rede) quanto de ambiente político e econômico. Finalizando, no capítulo 4, é feito o estudo do Bolsa Família em si. Desde sua origem como política da cidade de Brasília, até sua expansão como Bolsa Família. Passa pela adoção do programa brasiliense pelo governo federal, na forma do Bolsa Escola, pela confusão de programas de proteção social do governo Fernando Henrique até a unificação, que viabilizou a expansão do programa até chegar no que temos hoje. Sempre apresentando os fatos com as devidas contextualizações e interpretações. Existe ainda uma breve conclusão, onde a autora utiliza dos elementos apresentados para argumentar que o Bolsa Família é sim um programa socialdemocrata, e novamente demonstrar que as decisões e ações de um governo são mais complexas do que podem parecer de início. O grande mérito do livro é apresentar as informações de forma sólida, com forte embasamento teórico e prático, a partir de diversos autores e de elementos históricos. Nenhuma informação é jogada, não existem verdades absolutas e, dentro do possível, o livro não faz julgamento de valores. Busca, ao invés disso, entender o contexto e as motivações dos envolvidos. E, o que é fundamental para um livro introdutório, como ele se apresenta, é um livro fácil de ser lido e entendido.
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