Para ler o Pato Donald é um livro historicamente situado e precisa ser analisado com base em seu contexto, caso contrário pode ser entendido como paranóia ou exagero, como vi algumas pessoas descrevendo o livro. Tendo em vista que foi publicado no cenário chileno de 1971, logo após a eleição de Salvador Allende, o clima intelectual era bastante marxista, e o tom firme usado pelos autores foi proposital e necessário para o momento.
Mesmo que o que é descrito não seja exatamente o que vemos hoje em dia nos meios de comunicação, a ideia central é correta e relevante: as mídias de comunicação e entretenimento são, muitas vezes, fortes ferramentas do imperialismo (no caso do livro, imperialismo estadunidense), sendo o Sul Global o mais afetado por esse imperialismo cultural.
O livro aborda minuciosamente cada detalhe dos quadrinhos da Disney estudados, traz características dos personagens e o que eles representam na vida real. De acordo com a pesquisa, as historinhas da Disneylândia fortalecem ideias acerca da supremacia estadunidense e da suposta inocência burguesa em relação aos problemas sociais por meio do apagamento do processo de produção e do proletariado e de estereótipos dos povos marginalizados e da classe trabalhadora.
São muitas as análises feitas.
Uma reflexão trazida pelo livro que me interessou muito foi a de que os países periféricos são propositalmente (e de forma mal intencionada) tratados pelos Estados Unidos como dependentes e incapazes, como crianças (essa relação é feita entre os personagens e o mundo real), e por isso deveriam ser ensinados e seus comportamentos deveriam ser orientados. Isso é muito visto na atualidade (inclusive no caso da Venezuela).
Uma crítica que eu tenho é que os autores (pelo menos no meu ponto de vista) parecem apagar o potencial do Sul Global de perceber e enfrentar o imperialismo, colocoando-o como agente meramente passivo. Porém, eu entendo que essa perspectiva tenha sido necessária, na visão dos autores, para a luta política chilena da época.
Eu gostei da leitura, ela é bastante didática e fácil de compreender. Para quem tem interesse em entender melhor a história do Chile ou se aprofundar nos estudos sobre imperialismo cultural e comunicação de massa, esse livro é uma ótima ferramenta.
Demorei para postar essa resenha porque precisei fazer um resumo bastante grande do livro para colocar as ideias no lugar.