Mishima ou A Visão do Vazio -

    Marguerite Yourcenar

    Estação Liberdade
    2013
    128 páginas
    4h 16m
    ISBN-13: 9788574482194
    Português Brasileiro

    Autora do festejado Memórias de Adriano, a belga Marguerite Yourcenar (1903-1987) lança-se neste ensaio a um ousado desafio intercultural com o objetivo de tentar iluminar uma das mentes literárias que mais a fascinavam: o japonês Yukio Mishima. As motivações que cercam o suicídio do autor de Cores proibidas, afinal, sempre alimentaram a curiosidade de leitores mundo afora, teimando em perdurar como um mistério insondável, ao menos da perspectiva ocidental – mesmo que o próprio tenha tentado, ainda em vida e em vão, se justificar. No dia 24 de novembro de 1970, Mishima prepara sua morte com minúcia. Está com 45 anos. Sua obra é ampla. Alcançou a glória mundial. Ele quer que seu suicídio obedeça em todos os aspectos aos rigores do rito exigido há séculos pela tradição de seu país, no meio em que decidiu viver religiosa, social, literária e politicamente: ele rasga o próprio ventre, antes de se fazer decapitar pela espada de um amigo. Morte a um só tempo terrível e exemplar, pois de certa forma une-o com profundidade ao vazio metafísico que fascinou o poeta e romancista japonês desde sua juventude. Marguerite Yourcenar coloca todo seu talento literário e sua perspicácia a serviço dessa aventura humana, pela qual ela experimenta, de modo simultâneo e paradoxal, familiaridade e estranhamento. Sua análise se articula a partir de alguns momentos da vida e da obra de Mishima: a angústia e a atonia juvenis retratadas em Confissões de uma máscara; a tetralogia Mar da Fertilidade, espécie de “testamento literário” do autor; a decepção de Mishima ao ver o Prêmio Nobel que esperava ganhar ir para o mestre e amigo Yasunari Kawabata (que também morrerá, depois, por suicídio); os anos perturbados que o levaram a “reforjar” seu corpo; e, em segundo plano, a política, a ação e a obsessão com o seppuku; a morte, enfim.

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    Clayton de Souza26/05/2020Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Miscelânea de máscaras [Minha resenha no Jornal Rascunho]

    Marguerite Yourcenar aborda de maneira minuciosa a obra do japonês Yukio Mishima O líquido espesso escarlate alastra-se pelo chão, como um rio cuja nascente, o ventre, “parece vomitar”. A mão que, com a lâmina, lhe abriu a fenda dolorosa pertence ao mesmo corpo. Seppuku. Atrás dele, um jovem com sabre tem a incumbência — Kaishakunin — de dar fim à agonia do suicida, degolando-o. Amante da vítima, ele não consegue, cedendo a outro integrante da seita o encargo. O Japão é o palco dessa cena, fato que não surpreenderá mesmo um ocidental. Mas ao se aprofundar no contexto — dia 25 de novembro de 1970, no prédio das Forças de Autodefesa Nacional — e em seus personagens, em especial o suicida, o leitor ocidental ou oriental ficará perplexo. Mais que perplexo, no caso de um oriental. Até hoje no Japão moderno o suicídio lapidado do escritor Yukio Mishima (pseudônimo de Kimitake Hiraoka) causa constrangimento e desconforto. É assunto evitado. Em quê ele difere dos que os aviadores japoneses perpetraram na segunda guerra mundial (os famosos kamikazes), sendo o nacionalismo e a determinação pontos em comum? Talvez o motivo esteja no ritual, anacrônico sem dúvida, mas que remete a esse Japão moderno e “feio”, “de barriga cheia” e “vítima da serpente verde” aquele outro, heróico e honrado, no qual um homem era capaz de tirar a própria vida se sua atitude houvesse desonrado seu senhor. Entre a lâmina e os caças Mitsubishi A6M Zero dista uma dimensão espiritual enorme, e embora o ato seja o mesmo, talvez os contornos desses caças simbolizem ao japonês ocidentalizado a modernização alentadora, integrando a nação milenar ao mundo atual. O seppuku de um “louco exibicionista” de 43 anos torna-se assim uma caricatura folclórica. Mas não só pelo ato em si, pois como nos mostra em seu ensaio a escritora francesa de origem belga Marguerite Yourcenar, Mishima foi um crítico ferrenho da ocidentalização de seu país pós-1945. Livros em que um artista de envergadura aborda a obra e as idéias de um outro costumam constituir-se verdadeiras aulas da arte em questão (pensemos em Proust, de Becket, ou Hitchcock/Truffaut entrevistas); o interesse do livro aqui abordado é maior: é a visão de uma artista ocidental acerca da mais fascinante figura autoral do século passado. No entanto, o contraste não é tão gritante. A despeito de suas posições, Mishima é dos mais ocidentalizados escritores de sua geração. Yourcenar é perspicaz em assinalar na famosa cena de ejaculação de Koo Chan ante o São Sebastião, de Guido Reni, no romance Confissões de uma máscara, uma atração simbólica oriunda do contraste cultural. O elemento erótico parece então entrelaçar-se ao artístico, como o reforça a menção nele (nada gratuita, aliás) ao Sodoma e Gomorra proustiano, e seu universo de invertidos velados. É também nesse primeiro romance (como no suicídio) que se encontram condensados esses aspectos da obra mishimiana que Yourcenar aborda minuciosamente: o erotismo enredado a uma violência estilizada; o corpo, em seu “saber visceral e muscular”, incorporando o espiritual; a tradição preservada, em especial o bushido (o caminho do guerreiro). A estrutura do livro e a do homem Na estrutura convencional do livro as diversas máscaras que revestem o enigma-Mishima (ampliado e desfigurado por conta da “curiosidade grosseira pela anedota biográfica” da época e a mediação da mídia a um público-leitor inepto) dão-se a conhecer: a criança de constituição frágil, “raptada” da estofa pequeno-burguesa dos pais pela avó, neta da estirpe aristocrática (daimyô), que por capricho o vestia eventualmente com trajes feminis, e por nostalgia lhe educava na tradição dramática do No e Kabuki nipônicos, bem como no espírito do bushido; o enfant terrible triunfante já em seu debute, ávido por atenções, e cujo eu expressivo projeta-se na obra (ou o inverso?), egocentrismo certamente, mote para o desdém de um Gore Vidal, mas que, como nos mostra Yourcenar, não é nem preponderante em sua obra (vide o interesse de Mishima pelos fait divers que geram obras como O pavilhão dourado) nem é um problema em si, porque dotado de um universalismo que transcende o exotismo cultural e erótico, fazendo com que os cenários de experiências as mais pessoais bem pudessem “ser Londres, ou Roterdã, ou Nova York, ao invés de Tóquio”; o líder nacionalista e homem de ação, fundador da Tatenokai, organização que cultua a tradição samurai e a lapidação do corpo. Eis a introdução, a base e o termo do ensaio. A base é o essencial: nela há a análise do cânon mishimiano, onde duas obras sobressaem em extensão e importância. Patriotismo, conto e média-metragem concebidos por Mishima, ficcionaliza o seppuku do tenente Takeyama e esposa após o malogro do golpe de estado militar (Niniroku-Jiken) de 1936. Expressivamente Mishima interpreta o tenente; eis o dado que, unido às suas famosas seções de fotos artísticas encenando mortes diversas, é para a autora a práxis do preceito do Hagakure, livro-síntese do bushido: “morra em pensamento (…) e não temerás a morte”. Em Mar da fertilidade, tetralogia cujo último volume Mishima teria enviado a seu editor no dia fatal, a maravilhosa epifania final de Honda frente à imagem de um céu vazio, espelho de sua existência e da idéia de reencarnação do amigo Kiyoaki, morto no primeiro volume, prefigura o mesmo insight final do escritor. O fim do ensaio dedica-se à descrição do transe final do autor; nela exacerba-se o tom romanesco inerente ao estilo biográfico, e que dota certos fatos e detalhes de um tom simbólico, por vezes excessivo; é o caso do suicídio de Mishima, tido como sua “obra-prima”. A que se considerar, porém, que a idéia de triunfo sempre acompanha a obra-prima, materializada em sua expressividade que altera consciências. Quão tristemente irônico isso soa para o caso em questão, seja no olhar pasmo de seus contemporâneos, seja no olhar retrospectivo cuja reflexão se beneficia melhor pela distância! Mas sendo o seppuku a redenção de uma falha, qual teria inspirado essa “obra”? A falha de se fazer ouvir à “gente surda e emudecida” da “pátria que está metida/ No gosto da cobiça e da rudeza”? Ou a falha de toda uma obra, cristalizada na preterição ao prêmio Nobel, dado ao mestre Kawabata? Talvez ambos os motivos, talvez nenhum… Fato é que nos lábios desse narciso oriental, administrador das máscaras que revestem um eu grande demais para não estar fragmentado nelas, soaria estranha a derradeira elegia camoniana, contente de não só morrer na pátria “mas com ela”. Após um século da restauração Meiji e após a queda de Saigo Takamori (cuja luta pela conservação das tradições foi descrita — e romantizada — no filme O último samurai, e que Mishima parece querer replicar), tal elegia soa tardia, como o seppuku, este o ato mais danoso que Mishima cometera contra a própria obra. Felizmente ela sobrevive pela exuberância e universalismo que o artista lhe imprimiu, e que Yourcenar consegue, de forma cativante e com uma escrita acessível mesmo aos não iniciados neste universo ficcional, traduzir ao leitor.

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