"O homem nasceu livre e por toda a parte vive acorrentado." (Jean-Jacques Rousseau)
Em Moscou, na metade do século XIX, enquanto a Rússia vivia um difícil período de transição – derrotados na guerra da Crimeia contra a Turquia, alida da Inglaterra e a França, os russos começavam a perceber a distância de desenvolvimento que os separava da Europa - a novela TRÊS ANOS nos apresenta o mundo da família Láptiev, que é uma constante sensação de clausura, de abafamento e de angústia. Aleksei, Fiódor e Nina são descendentes do proprietário da firma “Fiódor Láptiev e Filhos”, cuja infância foi marcada por castigos severos do pai. Iúlia Serguéievna é filha do médico Serguei Boríssitch, que ri de si próprio e considera-se desrespeitado e explorado pelas pessoas. Sacha e Lida, netas de Fiódor e filhas de Nina, perdem a mãe logo cedo e ainda pequenas vão morar na casa do tio Aleksei, recém-casado com Iúlia. Desses três principais núcleos familiares, nenhum se apresenta como modelo de lar.
Tchekhov nos apresenta pessoas impossibilitadas de gerar um ambiente positivo, frutífero ou sequer amistoso. A narrativa percorre três anos de monotonias, hesitações e incertezas dos personagens, sempre nos dando a impressão de que essas vidas são marcadas indefinidamente pela demora em começar. Notamos isso principalmente em Aleksei, um homem passivo, sempre em ritmo de espera, não por escolha, mas por pura falta de convicção. Casado om uma mulher que não o ama, em suas reflexões percebemos constantemente que ele próprio reconhece a inadequação de seu comportamento no ambiente familiar e social.
Mas apesar de TRÊS ANOS deter-se no mundo interior aparentemente estagnado de Aleksei Láptiev, a autor contribui com o retrato da realidade de uma época: ao longo de toda a obra, aparecem discussões acirradas – e muito bem elaboradas - nos círculos da “intelligentsia” russa, com temas próprios daquele momento: o progresso social e as perspectivas de eliminação das desigualdades entre as classes, a relação entre a arte e as aspirações da época.
Com sua escrita afiada e sincera, e entrando no território dos dramas da alma humana fazendo o uso de um tom melancólico para abordar o homem e a sociedade de seu tempo, o olhar do autor cai sobre o homem que busca compreender a si mesmo e seu lugar no mundo.
Um brilhante contador de histórias, com texto direto, conciso e sem grandes rebuscamentos, Anton Tchekhov nos presenteou com um livro que nos leva à reflexão, seja na Rússia do século XIX ou no Brasil dos dias de hoje.
Resenha publicada originalmente em 13/03/2014.