Após a grande repercussão na mídia sobre o livro de Reza Aslan resolvi comprar e ler. Não só pela repercussão, mas também como historiadora das religiões fiquei bastante intrigada com o termo “zelota”, já que entendo o emprego do termo mais tardiamente e não um termo para ser empregado a Jesus e ao seu tempo.
Enfim, após a leitura optei também por fazer esta resenha, afim de propor um olhar crítico sobre o livro que foi apontado como o melhor livro de publicação de 2013 pelo New York Times. Num primeiro momento o que me ficou claro é que o livro em nenhum instante se propõe a ser um trabalho de caráter acadêmico, no sentido de trazer elementos novos para o campo. O autor visa tão somente reunir e propagar alguns estudos feitos em torno da personagem Jesus e seu movimento. No que diz respeito ao termo "zelota", o autor afirma que é uma conotação que este emprega para aqueles que eram observantes da lei e que de alguma forma se opunham ao sistema imperial. Quanto a isso, posso dizer que apesar de ter compreendido o que o autor quer expressar acredito que o termo não seja ideal. Um pesquisador que trabalha também com o campo do Jesus Histórico chamado Richard Horsley defendeu muito bem o porquê do emprego apenas para finais de 60 e início de 70 do século I EC (Era Comum). Período este em que ocorrem de fato movimentos com caráter mais ativistas e violentos.
Outro ponto que me preocupou bastante após a leitura do livro foi a utilização do termo ‘galileu’. Ainda que o autor reconheça Jesus como judeu em alguns pontos do livro, a sua ampla descrição da região da Galileia, como uma área quase que dissociada da Palestina, acaba por corroborar com a ideia forjada na Segunda Guerra Mundial pelos nazistas, onde se criou a ideia de que a região da Galileia era uma área separada ou independente do restante da Palestina, sendo os habitantes desta região não judeus. Ideia esta que acabou sendo mais um argumento para a legitimação do holocausto.
Um elemento também conflituoso é o fato do autor, apesar de reconhecer a existência de mulheres no movimento de Jesus, acaba por silenciar por completo a sua participação no movimento, reconhecendo apenas o apostolado a homens, sendo que a documentação neotestamentária nos dá indícios que havia mulheres apóstolas e com outras funções no interior do movimento.
Por fim, ainda fui levada a me questionar quanto à construção feita sobre Paulo. O autor reconhece que há contrastes entre Atos dos apóstolos e as cartas paulinas. No entanto, este por fim, tende a harmonizar as documentações de forma que ele acaba por dar continuidade a uma perspectiva dogmática sobre Paulo, usando termos como conversão, sendo que Paulo jamais deixou de ser judeu e nem muito menos instaurou uma nova religião. Ou ainda a concepção de Jesus como divino, já que que a ideia de divindade de Jesus ainda estava em construção. Apenas no evangelho de João (documento do século II EC) é que Jesus é apontado como Deus. Para Paulo, Jesus é aquele que anuncia uma boa nova, um mensageiro.
Enfim, apesar de minhas críticas, acredito que o livro pode contribuir para atrair e despertar o interesse do público geral para a pesquisa. O que é de fato o grande mérito de “Zelota: a vida e a época de Jesus de Nazaré” e espero apenas que minha resenha possa contribuir para uma leitura crítica do livro.
Abs,
Juliana Cavalcanti