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    Cinza do Purgatório -

    Otto Maria Carpeaux

    topbooks
    1942
    200 páginas
    6h 40m
    Português Brasileiro
    4.5
    21 avaliações
    Leram31Lendo10Querem138Relendo0Abandonos2Resenhas4
    Favoritos1Desejados138Avaliaram21

    A Cinza do Purgatório é uma coletânea de ensaios sobre literatura publicados originariamente no jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro. No livro o leitor verá Otto Maria Carpeaux em seu máximo esplendor. Os ensaios sobre Jacob Burckhardt, Santa Teresa de Ávila, Giambattista Vico, Franz Kafka, Joseph Conrad, Dostoiévsky, entre outros, estão entre as mais sublimes produções intelectuais em solo brasileiro.

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    Marcelo Gabriel Delfino picture
    Marcelo Gabriel Delfino04/12/2016Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Quando se diz que o Brasil foi um país de grandes pensadores, mesmo que em número reduzido, mas que tinham algo de realmente impactante a dizer e que isso foi perdido dos anos 60 para cá, podemos certamente incluir o pensamento de Otto Maria Carpeaux como um dos que mais sofreram com esse desvio e abandono. O pensador austríaco, exilado no Brasil, ajudou o desenvolvimento do pensamento brasileiro e sempre será uma fonte inesgotável de grandes ideias, além de apresentar uma escrita fluida e de muita beleza, mesmo que não escrevesse em sua língua de origem. O livro é repleto de ótimos ensaios, sobre temas variados, mas que apresentam sobretudo uma unidade interna muito firme. Carpeaux pode falar sobre a crise na universidade ou sobre literatura italiana, mas há sempre um núcleo identificável que o guia. Esse núcleo vem do catolicismo, o que é hoje considerado um verdadeiro pecado na vida intelectual. Mas se o leitor souber superar seus próprios preconceitos, só tem a ganhar. Carpeaux é um intelectual verdadeiro, com interesse em diversas áreas, ampla erudição e uma visão de mundo capaz de ordenar os eventos e apreender sua complexidade sem reducionismos. Depois de travar contato com um autor dessa estirpe, só temos a lamentar viver a época de Vladimir Safatle, Márcia Tiburi e muitos e muitos outros. Escolhi comentar apenas dois temas, porque não é possível mencionar todos os ensaios. Dessa forma, vou falar sobre sua visão da Idade Média e sobre a crise da universidade, dois temas que considerado particularmente importantes. A ideia mais estabelecida sobre a Idade Média é que ela foi uma época de pouco desenvolvimento intelectual, que foi, literalmente, uma idade de trevas, que acaba justamente com o surgimento do Renascimento e novo impulso à razão. Mas nada disso é verdade. A Idade Média nos legou, entre outros inúmeros coisas, a universidade como um local de transmissão do saber. Ao contrário do que alguns estudiosos procuram desinformar, como Umberto Eco e seu “nome da rosa”, o saber não era protegido do grande público, como se pertencesse apenas a uma elite religiosa, que não media esforços para manter o povo na ignorância. Ideias como essas, com forte predomínio das noções do Iluminismo, são um verdadeiro desserviço ao conhecimento. Antes de procurar um salafrário qualquer, leia os autores que valem a pena, como é o caso de Carpeaux. O autor chama a atenção para o papel do Estado em nossa época e durante o período medieval. Ao contrário do que se afirma muitas vezes, o estatismo não era bem visto e não favorecia o desenvolvimento no período. E a Igreja não significava necessariamente um poder reacionário, lutando contra todas as tentativas de revolução social e modificações. Isso para dar um exemplo, por alto, de que nesse livro vamos encontrar verdadeiro pensamento e não lugares comuns. Assim como surpreende ao falar da Idade Média, Carpeaux também traz novas perspectivas ao falar da crise das universidades. Segundo ele, o fenômeno é muito mais antigo do que se poderia pensar à princípio (ele diz ter lamentado o rumo que as coisas tomavam ainda durante sua época de estudante, o que deve ter sido nos anos 20 ou antes, até). E antes que se credite o problema a doutrinação ideológica, devemos entender a transformação de uma época. Nesse ponto, acredito que o autor tenta entrar em acordo com o livro basilar de Ortega Y Gasset “ A Rebelião das Massas”, ao mostrar que são os alunos que hoje mandam na universidade e que ela apenas responde àquilo que se espera dela. É o fenômeno da participação das massas nos processos políticos que constitui uma novidade no século XX e não propriamente os ideais comunistas e socialistas. A hipótese vale uma investigação mais completa, certamente. Porque ao baixar o nível de acordo com o novo tipo de demanda que as universidades recebiam, era evidente que em longo prazo isso traria uma correspondência exata entre a mediocridade das massas e o ensino superior. Dessa forma, como a função esperada da universidade é fornecer uma elite à sociedade, se o que se espera é algo muito inferior, é certo que a universidade vai entregar exatamente o que se espera dela. Saber lidar com essa exigência é muito difícil. É preciso, logo de início, desvincular a vida intelectual e a vida profissional. Imaginar que a passagem pela universidade transforma alguém em intelectual (como infelizmente parece ser a crença) é tolo e perigoso. Ninguém se torna apto a debater profundamente sobre algum assunto importante depois de apenas adquirir um diploma. Se tivéssemos mais cursos profissionalizantes e deixássemos a universidade como um objetivo apenas a quem realmente tivesse vocação ou interesse profundo pela vida intelectual, é provável que muitos mal-entendidos não existissem. Outro tema que aparece é a leitura de Kafka e outros autores. Mas principalmente desse autor. Cansado de ler que Kafka sofria com a timidez, com um pai autoritário, com dificuldades de progredir na vida material e emocional, foi um verdadeiro bálsamo acompanhar um comentário que evitava reduzir uma produção importante a um pacote de sintomas psicológicos. O mundo de Kafka é repleto de angústia, onde Deus está presente, mas por alguma razão não se consegue conhecê-lo e isso traz sofrimento. O texto de Carpeaux abre para uma perspectiva interessante e que vale a pena conhecer. Depois de ler esse livro fica apenas o lamento de um caminho abortado em nosso país. O que poderia ter sido e que foi massacrado por uma trupe de oportunistas que dominaram o cenário intelectual a partir de 64. Já fomos muito mais interessantes...

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    Otto Maria Carpeaux profile picture

    Otto Maria Carpeaux

    Otto Karpfen, mais conhecido como Otto Maria Carpeaux (Viena, 9 de março de 1900 — Rio de Janeiro, 3 de fevereiro de 1978) foi um ensaísta, crítico literário e jornalista austríaco por nascimento e brasileiro por opção. Filho único de pai judeu e mãe católica, nasceu em Viena (Áustria), em 9 de Março de 1900, onde cursou o ginasial. Ingressou na faculdade de direito por sugestão familiar, abandonando-a um ano depois. Estudou no Instituto de Química da Universidade de Viena entre os anos 1920 e 1925, mas nunca exerceu a profissão. Na década de 20, frequentava os círculos literários de Viena e conferências públicas de Karl Kraus. Estudou filosofia (doutorou-se em 1925), matemática (em Leipzig), sociologia (em Paris), literatura comparada (em Nápoles) e política (em Berlim); além de dedicar-se à música. Em março de 1930 casou com Helena Carpeaux que o acompanhou por toda a vida. Dedicou-se intensamente à literatura e ao jornalismo político, carreiras que deixou em Viena com passagens como redator da revista semanal Berichte zur Kultur und Zeitgeschichte articulistas do jornal Neue Freie Presse. Abandonou o Judaísmo em 1933[1], converteu-se à religião católica e acrescentou Maria e Fidelis ao seu nome, este último por pouco tempo. Tornou-se homem de confiança de dois primeiros-ministros em Viena, Engelbert Dollfuss e Kurt Schuschnigg, respectivamente os últimos primeiro-ministros antes da Aústria ser incorporada ao Reich alemão. Com a queda deste último, foi obrigado a seguir para o exílio. Em princípios de 1938, foge com a mulher para Antuérpia (Bélgica), onde ainda trabalha como jornalista na Gaset van Antwerpen, maior jornal belga de língua holandesa. Diante da escalada nazista, Carpeaux se sente inseguro e foge com a mulher, em fins de 1939, para o Brasil. Durante a viagem de navio, estoura a guerra na Europa. Recusando qualquer ligação com o que estava acontecendo no Reich, muda seu sobrenome germânico Karpfen para o francês Carpeaux. Ao desembarcar, nada conhecia da literatura brasileira, nada sabia do idioma e não tinha conhecidos. Na condição de imigrante, foi enviado para uma fazenda no Paraná, designado para o trabalho no campo. O cosmopolita e erudito Carpeaux ruma para São Paulo. Incialmente passa dificuldades; sem trabalho, sobrevive à custa de desfeitas de seus próprios pertences, inclusive livros e obras de arte. Poliglota, o homem que já sabia inglês, francês, italiano, alemão, espanhol, flamengo, catalão, galego, provençal, latim e servo-croata, sem dificuldades, em um ano aprendeu e dominou o português. Em 1940, tentou ingressar no jornalismo nacional, mas não consegue. É então que escreve uma carta a Álvaro Lins a respeito de um artigo sobre Eça de Queiroz. A resposta veio em forma de um convite, em 1941, para escrever um artigo literário para o Correio da Manhã, do Rio de Janeiro. Seu artigo é publicado e assim ganhou um emprego. Iniciava uma publicação regular. Até 1942, Carpeaux escrevia os artigos em francês, que eram publicados em tradução. Mostrando sua grande inteligência e erudição, divulgou autores estrangeiros pouco ou mal conhecidos entre nós e tornou-se um grande crítico literário. Nesse mesmo ano de 1942, Otto Maria Carpeaux naturalizou-se brasileiro. Ainda nesse ano, publica o livro de ensaios Cinzas do Purgatório. Entre 1942 e 1944 Carpeaux foi diretor da Biblioteca da Faculdade Nacional de Filosofia. Em 1943, publica Origens e Fins. De 1944 a 1949 foi diretor da Biblioteca da Fundação Getúlio Vargas. Em 1947 publica sua monumental História da Literatura Ocidental - o mais importante livro do gênero em língua portuguesa - no qual analisa a obra de mais de oito mil escritores a partir de Homero aos mestres modernistas. Em 1950, torna-se redator-editor do Correio da Manhã. Em 1951, publica Pequena Bibliografia Crítica da Literatura Brasileira, obra singular na literatura nacional - reunindo, em ordem cronológica, mais de 170 autores de acordo às suas correntes, da literatura colonial até nossos dias. Sua produção crítica literária é intensa, escrevendo em jornais semanalmente. Em 1953, publicou Respostas e Perguntas e Retratos e Leituras. Em 1958, publicou Presenças, e em 1960, Livros na Mesa. Carpeaux foi forte opositor do Golpe Militar, em 1964, redigindo artigos acerca da retrógrada autoridade da então nova ordem militar, participando de debates e eventos políticos. Em 3 de fevereiro de 1978, morreu no Rio de Janeiro de ataque cardíaco.

    81 Livros
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    Otto Maria Carpeaux