Qual seria, afinal, o grande tema dos livros de Thomas Pynchon? Há quem diga que é a paranóia. Outros, o mistério (inegavelmente suas obras são bem detetivescas, mesmo que este clima seja imposto implicitamente, sem se denunciar, com personagens aparentemente banais caindo em complexos esquemas de algum cenário underground). Este livro, a meu ver, prova que é a comunicação, a linguagem - e todos os meandros que a circulam.
Pois as incertezas, as dúvidas, tudo que é incongruente se origina não da falta de informações, mas da pluralidade delas, - é como se a cacofonia da pós modernidade fosse incutida em um texto (este lançando em um Estados Unidos de 1966, de pura efervescência cultural e social).
Também pode ser vislumbrado o Efeito Borboleta; ao tomar conhecimento que seu falecido ex-namorado a escolhera como sua inventariante, Édipa, a protagonista, inicia numa jornada que trará para ela (e para o público) mais dúvidas do que certezas, - temos uma nítida impressão do que está acontecendo, mas tudo não passa de suposição, como se tudo estivesse dito pela metade, - e as coisas, assim, adquirem vários significados, na semiótica de tudo poder transparecer qualquer coisa; como no livro em questão, onde a Trompa que estampa a capa pode ser tanto um devaneio da protagonista como o símbolo de uma sociedade secreta (a suposta M.O.I.T.A.), - e se essa sociedade secreta existir, ela pode ser tanto um empreendimento do falecido ex-namorado quanto um serviço postal paralelo ao governo, com sua criação datando o Sacro Império Romano.
Afinal, em obras Pynchonianas tudo pode ser real (ou falso); os conceitos adquirem novos significados (como, neste livro, o Demônio de Maxwell e a Entropia, conceitos físicos que aqui são incluídos e modelados ao ponto de caberem na história), e o que reina é o caos da sociedade contemporânea.
Escritor há mais de sessenta anos, creio que a obra do autor perdure por seu domínio em explorar a anarquia dos tempos atuais, - fico pensando o que ele acha deste antropoceno (seu último livro, O ÚLTIMO GRITO, lançado em 2013, é a amostra mais precisa de sua análise do novo século [por mais que ele se passe em 2001, acompanhando os ataques às torres gêmeas de Nova Iorque]).
Deliciosamente difícil, é o tipo de livro para quem gosta de histórias frenéticas, confusas, para quem está cansado de livros onde o autor entrega todas as cartas de mão beijada (se bem que, se comparado a VÍCIO INERENTE e O ÚLTIMO GRITO, que juntos deste foram os únicos livros que li de Pynchon, este é facílimo; eu creio ser uma excelente porta de entrada para o autor).
Favoritado.