Provérbios Repenteados -

    Teresa Martinho Marques

    Éterogémeas
    2005
    36 páginas
    1h 12m
    ISBN-10: 9729924333
    Português

    Embora envelheçam, os provérbios não gostam de envelhecer. Nem gostam de mudar de roupa ou de se despentear. Mas também não gostam de ficar quietos. Querem estar sempre à mão de quem pretenda dar-lhes lustro. Isto numa conversa, numa discussão, num fiozinho de convencimento, para encher o ouvido de quem escuta e não só. E também gostam, os provérbios, de se multiplicar, traduzindo por vezes ideias parecidas ou ideias que uma à outra se completam. Por exemplo: "Roma e Pavia não se fizeram num dia" e "Quem espera sempre alcança". (Em aparte, apetece-me já já despentear este: "Quem espera sempre dança", ou melhor, sempre vai dançando, enquanto espera, o que já é bem bom...). E também gostam, os tais senhores provérbios, de dizer o contrário uns dos outros (embora preferissem que se não desse conta disso). Querem ver? Aí fica um exemplo: "Quem espera sempre alcança" e "Quem espera desespera". Do alto da sua mal disfarçada altivez - própria de quem é pequenino, uma espécie de poema pequenino - gostam ainda os provérbios de enunciar verdadinhas que não são para discutir (isso queriam eles...). Mas - já o disse - há sempre um qualquer provérbio à espreita, para contrariar a verdadinha formulada pelo companheiro. Azar deles!

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