Num futuro não muito distante, o planeta encontra-se totalmente devastado. As cidades foram transformadas em ruínas e pó, as florestas se transformaram em cinzas, os céus ficaram turvos com a fuligem e os mares se tornaram estéreis. Os poucos sobreviventes vagam em bandos. Um homem e seu filho não possuem praticamente nada. Apenas uns cobertores puídos, um carrinho de compras com poucos alimentos e um revólver com algumas balas, para se defender de grupos de assassinos. Estão em farrapos e com os rostos cobertos por panos para se proteger da fuligem que preenche o ar e recobre a paisagem. Eles buscam a salvação e tentam fugir do frio, sem saber, no entanto, o que encontrarão no final da viagem. Essa jornada é a única coisa que pode mantê-los unidos, que pode lhes dar um pouco de força para continuar a sobreviver. “A Estrada” representa uma mudança surpreendente na ficção de Cormac McCarthy e talvez seja sua obra-prima. Mais que um relato apocalíptico, é uma comovente história sobre amadurecimento, esperança e sobre as profundas relações entre um pai e seu filho. Livro vencedor do Prêmio Pulitzer de 2007.
A estrada -
Cormac McCarthy
A Estrada é angustiante e comovente
A Estrada (The Road) é o décimo livro do laureado autor Cormac McCarthy e o último livro escrito antes de seu hiato de quase dez anos. Ele foi lançado em 2006 e em 2007 recebeu o Prêmio Pulitzer de Ficção, além de receber vários outros prêmios e ser finalista em outras indicações. Ao abrir o livro vemos uma dedicatória de Cormac para seu filho: "Esse livro é dedicado a John Francis McCarthy." Pois foi durante uma viagem para El Paso, no Texas, em companhia de seu filho John, que ao olhar pela janela do hotel e visualizar as colinas, as planícies e a natureza em volta, ele se pergunta: como será tudo isso daqui a cinquenta ou cem anos no futuro? Como seria se tudo isso estivesse destruído pelo fogo e só restassem cinzas? Como eu faria para sobreviver ao lado do meu filho nesse cenário pós-apocalíptico? E então surgiu a ideia para escrever "A Estrada". Esse é um livro que se passa em um universo pós-apocalíptico onde acompanhamos pai e filho nessa road story através do cenário de um mundo devastado pelas mudanças climáticas e completamente sem biosfera. Tentando seguir rumo ao sul para fugirem do inverno brutal que se aproxima, buscando encontrar no litoral um jeito melhor de sobreviver. Durante a caminhada através da estrada, vemos o desenvolvimento do relacionamento de pai e filho em um clima de resiliência e superação. E somos envolvidos por um suspense tenso, com pitadas de horror, que me fez segurar o fôlego em alguns momentos enquanto temia o que seguiria. Cormac é mestre em criar ambientação. Acompanhei isso em "Onde os Velhos não Têm Vez" e em "A Estrada" não foi diferente. Ele escreve cenas brutais, construindo um ambiente absolutamente atroz, com poucos diálogos, mas com uma descrição precisa de tudo que cerca os personagens, nos transportando de forma efetiva para esse cenário cinza, frio, inóspito e aterrador em que o mundo se transformou. O livro de Cormac é uma dessas leituras que não deve ser feita ancorada apenas no racional. Esse é um livro para se envolver emocionalmente, para sentir e se colocar no lugar dos personagens. Para testar sua humanidade e empatia e refletir sobre: como você se comportaria se fosse colocado nessa estrada em meio a essa atmosfera completamente contaminada pelo medo, em um mundo totalmente aterrador e sem esperança, onde alguns fazem qualquer coisa para sobreviver, inclusive recorrer ao canibalismo. O autor tece imagens que serão capazes de assombrar meus sonhos por muito tempo, inclusive as imagens de cabeças decepadas, enfiadas em estacas e dispostas diante de uma construção que me levaram de volta ao Congo Belga e a brutalidade e loucura de Kurtz em "O Coração das Trevas" de Joseph Conrad. E teve também uma cena envolvendo um bebê que é absolutamente perversa e cruel. Essa cena fez meu o estômago embrulhar, me causando ânsia de vômito. A Estrada é tido por diversos críticos como o principal livro do gênero pós-apocalíptico e essa e outras histórias de Cormac McCarthy serviram de inspiração para muitas obras, incluindo filmes, games, livros, histórias em quadrinhos e graphic novels. A escrita do autor possui uma certa agudez. McCarthy não faz uso do travessão em seus diálogos e usa a pontuação com muita austereza. Mas seu estilo de escrita com essa prosa escassa, combina perfeitamente com a forma direta como ele conta suas histórias e até ajuda a compor a atmosfera cinza, opaca e desesperadora da odisseia pós-apocalíptica que é "A Estrada". Li esse livro em uma LC com o Filipe e foi uma leitura que gerou ótimas discussões. Entretanto, discordo de alguns pontos levantados por ele, principalmente sobre ideias que ele viu em um vídeo e compartilhou comigo e sobre o final do livro. Para mim o final foi o que deveria ser, nada mais, nada menos. Fiquei muito grata, Filipe, por ter me feito companhia nessa LC. O próximo livro do autor que pretendo conferir é "Meridiano de Sangue", que parece ser muito referenciado, assim como "Na Estrada". Recomendo muitíssimo esse livro para todos que gostam de histórias angustiantes e comoventes.
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