Queridos pais, ao que me parece, estou certo apenas de que era domingo.
Ignorava que me achava nessa despedida estranha em que se dorme num lugar e se acorda em outro e que a pessoa deixa o corpo em que morava, assim como a lagarta se descarta do casulo para ser outro ser, embora continue com a mesma identidade.
A princípio, compreenderão que foi aquele desmaio de que ninguém se livra, quando se vê sob a sentença de despejo da forma em uso.
Um sono terrível. Sono de muitos tranquilizantes condensados. Lutei por não me apagar, mas tudo inútil.
Não sei o que sucedeu depois. Essa história da morte parece mágica de bruxas invisíveis. Digo isso, porque uma névoa estranha nos envolve de tal maneira que é impossível reagir.
Afinal despertei no recanto que me pareceu casa de saúde ou qualquer instituto congênere.
Demorei tempo enorme a aceitar tudo aquilo. Queria vê-los a qualquer preço. Por fim, foi a vovó Maria Luíza uma espécie de fada benfazeja que se colocou a meu encontro e, com paciência e carinho de mãe, me explicou que a minha situação alcançara novo sentido.
Solicitou permissão para transportar-me até nosso ambiente e lá me fui.
Nada me adiantou o esforço para fazer-me visto e ouvido. A vovó me explicou que nos achávamos em outra faixa de vida.
Nunca imaginei um reencontro assim qual este em que os vejo sem que me vejam, como se fosse obrigado de minha parte a ocultar-me por traz de uma tela desconhecida.