O Cavaleiro de Ouro de Virgem é, na série clássica, considerado por muitos o mais poderoso entre os doze dourados — não para mim, claro. Já neste spin-off, que talvez seja o que mais rivaliza com o clássico tanto em termos de fãs quanto de construção de história, temos um guerreiro igualmente poderoso, embora de participação curta, porém essencial para o desenvolvimento da trama: Asmita.
Aqui, inclusive, a narrativa me parece mais regular do que a obra original, justamente por preencher algumas lacunas deixadas pela série clássica. Asmita é apresentado como um cavaleiro cego, capaz de sentir a dor das pessoas ao seu redor, o que o leva a um questionamento constante sobre o papel dos deuses e o sofrimento humano.
Esses gaidens são histórias extras, cada uma com um Cavaleiro de Ouro como protagonista, geralmente mostrando missões ocorridas antes do confronto com o exército de Hades visto na série principal. O gaiden de Virgem se passa pouco antes da participação de Asmita nos eventos centrais e ajuda a compreender melhor como ele chegou ao Inferno, onde encontrou o Cavaleiro de Pégaso, além de explicar a criação do rosário capaz de selar por completo a alma dos espectros, impedindo que retornassem à vida.
A história carrega um forte teor filosófico, refletindo sobre a forma como as pessoas vivem suas vidas e as consequências dessas escolhas no pós-morte.
Ahimsa é um jovem que, enquanto vivo, não compreendia nem seguia as “regras” impostas pelos deuses. Questionava o sofrimento direcionado a pessoas boas que apenas queriam viver em paz. Após sua morte, sua alma é enviada ao Inferno, mas chega lá em uma condição especial, o que desperta a atenção de Atavaka, um espectro que pode ser visto como a contraparte de Asmita. Se o Cavaleiro de Virgem é considerado o homem mais próximo de Deus, Atavaka é o espectro que mais se aproxima dessa mesma condição.
Asmita, quando ainda era um jovem monge, teve contato com Ahimsa em vida. Ao reencontrá-lo no Inferno, compadece-se de sua situação e tenta, de alguma forma, ajudá-lo. Ainda assim, deixa claro que não é um deus e, portanto, possui limitações. Mesmo assim, não poupa esforços.
Essa escolha o coloca em rota de colisão com dois espectros extremamente poderosos. O primeiro é Kagaho de Benu, já conhecido da série principal, cujo poder rivaliza diretamente com o dos Cavaleiros de Ouro. O segundo é o próprio Atavaka, que possui planos escusos envolvendo a absorção de almas para aumentar seu poder e, assim, sobrepujar os deuses.
Todos esses eventos ocorrem momentos antes da breve participação de Asmita na série principal, o que ajuda a explicar muito do que vem a seguir. Mais do que isso, eleva o status do personagem, que, mesmo enfrentando desafios monumentais, realiza um feito decisivo ao abrir o caminho para a vitória dos Cavaleiros de Ouro contra o exército de Hades.
Uma camada adicional de leitura dessa aventura do virginiano está na forma como o ser humano busca o divino. Alguns questionam, outros seguem cegamente, há também os que simplesmente não acreditam. Em todos os casos, essa crença — ou descrença — molda a maneira como cada um vive e as consequências que isso traz, sejam elas positivas ou negativas. O ser humano está sempre em busca dos porquês, mesmo sabendo que, em nossa jornada, teremos mais perguntas do que respostas. E talvez as poucas respostas que realmente importam estejam dentro de nós mesmos.