Publicado em 1993 e premiado em 1994 pela União Brasileira de Escritores e pela Academia Brasileira de Letras, Aos quatro ventos é uma história de amor. Ou de amores, que se manifestam pela paixão dos amantes, pela amizade que atravessa tempos e oceanos, pela palavra, pela vida e pela liberdade. O livro é também uma homenagem comovente ao mundo das letras e dos livros. A escrita é uma paixão? Uma obsessão insana? Uma necessidade incontornável, como se obedecesse a forças sobrenaturais? Estas são questões que parecem perseguir o protagonista Guto. Diretor de uma empresa, subitamente ele descobre a escrita e, com ela, o fascínio de explorar o inesgotável universo da linguagem, atentando para o significado e o som das palavras, experimentando suas possibilidades, construindo um estilo e, sobretudo, servindo-se delas para o prazeroso — e muitas vezes difícil — diálogo com passado. A presença da memória afetiva é tão forte, aliás, que chega a ser “personagem” central, rivalizando com Vanda, esposa de Guto e professora de ciências, que sábia e calmamente vai acompanhando a entrega absoluta do marido aos encantos da escrita e da leitura. Até que, numa guinada inusitada, ela impede um desfecho talvez desastroso.
Aos quatro ventos -
Ana maria machado
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Como essa era uma leitura de fim de mês e eu sempre ouvi que a Ana Maria Machado era uma autora infanto-juvenil, eu esperei pouquíssimo desse livro; esperei apenas uma diversão por algumas horas, mas eu encontrei diálogos apaixonantes e vários monólogos sobre a arte da escrita e esses monólogos realmente servem para reflexão, principalmente para quem se identifica com esse modo de ver o mundo. A escrita do livro é impecável e a narrativa se intercala entre a primeira e a segunda pessoa, porém isso não é de modo algum, um desafio. Sempre que temos uma narração em primeira pessoa é que vem o monólogo sobre escrita e não tem como não gostar de tudo que está escrito nele. A trama acompanha Guto, diretor de uma empresa, e sua esposa Vanda, uma professora de ciências. Eles são casados há dez anos e uma peculiaridade que os segue é que eles nunca tiveram uma aliança de casamento formal porque quando resolveram oficializar a união, Vanda decidiu usar a aliança que tinha sido da avó de Guto. Essa aliança é uma argola de ferro bastante rude, mas que se torna o elemento surpresa na metade da história. Depois de se mudarem para um novo apartamento e Guto finalmente ganhar um escritório só para ele, uma obsessão pela escrita e pela literatura começa a surgir. Ele não larga mais o computador e tudo o que ele pensa é em escrever e em colocar suas experiências no papel em forma de conto. É dessa obsessão que saem suas reflexões sobre o mundo da literatura, sobre escritores, sobre o modo como eles veem esse mundo, como tudo é passível de se transformar em literatura e em como ele não consegue fazer mais nada do que lembrara do passado e imaginar situações a fim de contá-las. Eu adorei o desfecho do livro, porque conseguiu unir o místico com o real de uma maneira que não ficou forçado e mesmo que a explicação tenha vindo apenas no final do livro, isso não atrapalhou a trama, porque eu acredito que a intenção não tenha sido escrever sobre o místico. Acho que a intenção da autora era nos fazer refletir junto com o Guto enquanto ele pensava sobre a literatura ou quando conversava com a irmã de Vanda, Lélia, sobre o mesmo assunto. Eu sempre achei interessante quando um autor trazia um personagem escritor em seu livro porque isso dá uma ideia geral de como o autor pensa a literatura. Aqui eu acredito ter visto como a Ana Maria Machado enxerga isso; e é um mundo lindo, apesar de solitário e observador. O escritor tira impressões do mundo que podem não ser as mesmas das outras pessoas e Guto explora isso. Os diálogos que ele tem com Lélia são geniais, indo desde a quantidade de leitores do Brasil até contadores de história orais, como os avôs e avós que alguns ainda tem. Eu não tenho o que reclamar desse livro; a escrita é estupenda, a trama é leve e rica e os personagens são muito reais. Isso é o mais importante em uma história como essa contada pela Ana. Não há uma trama muito complexa ou conflitos muito fortes, aqui há apenas a relação entre as pessoas e isso está muito bem trabalhado. Eu adorei e ainda tenho mais um romance da mesma autora para ler; espero que eu dê a sorte que dei com este. Mais resenhas em: www.cometadeideias.blogspot.com
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