O primeiro capítulo apresenta diálogos que simplesmente me transformaram, abriram uma discussão que eu queria acompanhar há muito tempo, mas não sabia como ou por onde começar. São três pessoas falando a respeito do mesmo assunto, e as três se corrigem, se complementam, mas que, sobretudo, ABREM espaço para mais do que está contido ali como "esclarecido". É a primeira vez que leio sobre esse assunto estando longe de palestras escolares e livros didáticos que focam somente na droga e nas suas consequências, e tenho certeza de que isso influenciou totalmente na maneira com que a leitura fluiu para mim.
Cada capítulo é escrito por um profissional diferente, o que abre um leque de estudos com focos e aprofundamentos distintos. Acompanhamos desde os "primórdios do crack", até todos os rótulos que foram atribuídos (e que ainda são) para ele e principalmente para os seus usuários. Inclusive, no próprio livro há relatos de usuários, que normalmente são estigmatizados como "mortos-vivos", discutindo sobre esse próprio preconceito.
Adorei que o livro não se limita a uma única área. Médicos participam, como também psicólogos, atuantes da filosofia e sociologia etc, isso expande o livro de uma forma incrível, aborda a maioria das discussões que estão presentes até os dias atuais. Já escutei muitas vezes o termo "morte" correlacionado ao crack, desde as mesmas falas a respeito da Cracolândia, colocando-a lado a lado da miséria. Sempre fiquei com essas coisas na cabeça, porque naturalmente a maioria das pessoas se limita a esses tipos de comentários que foram formentados há décadas (o que esse livro comprova repetidamente) e só repetem o que ouvem. Esse livro ajudou em muitas dúvidas que eu tinha a respeito desse assunto, além de quebrar algumas falas que são jogadas de qualquer jeito por mídias sociais e pela própria sociedade.
Enfim, só tirei meia estrala porque a edição apresenta alguns erros ortográficos que não foram corrigidos, mas de resto, com certeza foi uma das melhores leituras do ano. Recomendo para quem tem algum mínimo interesse no assunto, mas principalmente para os hipersensíveis a qualquer toque de realidade.