Fome -

    Knut Hamsun

    Geração Editorial
    2009
    172 páginas
    5h 44m
    ISBN-13: 9788561501143
    Português Brasileiro

    Fome, que chega as livrarias brasileiras com a magistral tradução de Carlos Drummond de Andrade, é um dos maiores romances da literatura universal. Escrito pelo norueguês Knut Hamsun, autor singular e polêmico, premiado com Nobel em 1920, descreve os tormentos de um escritor vagabundo e famélico que vaga pelas ruas com um toco de lápis, com o qual escreve crônicas para os jornais, dependendo disso para não morrer. Comovente, agudo, cheio de dor e sonhos, mas também de alegrias e esperanças, é um romance que se lê com entusiasmo e emoção, com uma lágrima nos olhos e um sorriso nos lábios. Uma obra prima inesquecível.

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    mpettrus09/07/2024Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    O Escritor Faminto de Hamsun

    “Foi nessa época que passei fome em Kristiania, esta cidade maravilhosa, da qual ninguém sai antes de receber as suas marcas.” ​“Fome” é um romance implacável escrito pelas mãos de Knut Hamsun lançado em 1890. O romance de estreia do autor sobre seu alter ego nos conta a história de um jovem com sonhos de ser escritor vivendo na fria cidade da antiga Kristiania, hoje, atual Oslo. ​O dia-a-dia do protagonista se configura como uma série de altos e baixos em uma luta constante e obstinada para colocar comida no estômago. O seu apoio é uma editora. O seu obstáculo é o editor dos livros, que muitas vezes não está presente. E caso lá esteja, ele não aceitará os manuscritos que lhe forem apresentados. ​ Basicamente, esse é o enredo central da história. À priori, você pode achar que não acontece muita coisa nesse livro. Ledo engano. Quando lemos as páginas desse romance com mais calma, desbravamos suas mensagens implícitas e começamos a perceber que essa história tem um enredo psicológico muito forte. ​ Ao acompanharmos a jornada do protagonista, um jovem escritor vivendo em extrema pobreza, enquanto vagueia por Kristiania - às vezes sem-teto, às vezes vivendo na acomodação mais miserável que se possa imaginar -, descobrimos tão logo que a maior parte da história se passa dentro da cabeça do escritor. Esse romance é essencialmente um estudo psicológico do que acontece com a mente, quando você está vivendo no limite, lutando desesperadamente pela sobrevivência. Fiquei na dúvida se se tratava de um romance cujo tema é naturalista ou socialmente realista. ​O protagonista passa fome porque não consegue encontrar trabalho ou porque é pobre? Ou a fome é um catalisador para tudo, exceto representações de miséria social? Bem, de qualquer modo, a fome é algo a que o escritor está exposto. É uma droga que o faz ver tudo sob uma luz diferente. ​ Hamsun retrata o período de fome do escritor pouco antes da chegada do inverno. Ele vagueia inquieto pelas ruas da cidade. Vacilante, dividido e desesperado. Sua alma é um conglomerado de fragmentos culturais do passado e do presente, restos de livros e jornais, pedaços de pessoas. ​ Ele é um sujeito sem história visível e sem identidade fixa. É nervosamente observador, impressionável. Cheio de abrasões mentais vivencia a cidade e seus habitantes de maneiras distorcidas e paranoicas. Conversa com mendigos, velhos, penhoristas, prostitutas, garçonetes e policiais. Ele fala com todos eles. Seus discursos são monólogos. Ele sonha com encontros amorosos orientais e grandes realizações literárias. É sempre solitário e é antissocial. É uma espécie de criminoso sem crime. Sua imaginação é dominada pela paranoia, pela idiossincrasia estética, pelo orgulho frágil, pela autodefesa e pela agressividade. Ele é uma montagem de impulsos mais ou menos arbitrários. Ele é retratado sem profundidade interior, sem experiência e com pouca visão auto analítica. ​É, portanto, tudo menos um herói de romance tradicional. Ele está no presente, e todas as suas autorreflexões são sobre as experiências presentes que não podem ou devem ser reunidas numa formação de experiência coerente, mas permanecem sempre no temporário. O romance não tem momentos construtivos. ​ Praticamente todas as expressões de interesse pelos outros, todos os sinais de generosidade têm a ver com algo diferente de empatia. Trata-se de assumir posições que impeçam a recaída na lavagem do chão, nas refeições regulares, nos apertos de mão amigáveis ​​e na ternura. Trata-se de exposição a distúrbios sensoriais e mentais. Eles são sobre orgulho e arrogância. ​ O escritor faminto de Hamsun se encontra constantemente ou se coloca em situações que promovem essa posição de ‘outsider’. Ele se sente estranho a si mesmo, vê-se como presa de ‘influências estranhas e invisíveis’. Nada escapa a sua atenção. Ele é um ponto de encontro para os regimentos da arbitrariedade. Seu humor está além do controle pessoal. Tudo parece “fugir de mim”, é dito em vários trechos do romance. Não tenho dúvidas de que o autor desse romance foi exposto à fome. As descrições e os detalhes são tão vívidos e realistas que é quase como se você, leitor, estivesse passando pela experiência. Isso torna a leitura desconfortável. É doloroso ver um ser humano se desintegrando daquele jeito. ​ Eu estava apertando as mãos em desespero, quando, depois de um longo período sem comida substancial, o escritor recebe uma refeição adequada, mas seu corpo, que não está mais acostumado com comida, não consegue mantê-la no estômago. E eu queria chutá-lo, quando a dignidade e o orgulho o impedem de aceitar comida ou dinheiro, o que poderia mantê-lo por um dia ou dois. ​ Hamsun mergulha direto na alma ao descrever as fantasias e pensamentos febris de um homem que se equilibra no abismo, pois aqui orgulho e decência são desafiados continuamente. Mas se há algo que permeia o livro é, afinal, a esperança. ​ A esperança e o sonho de uma vida melhor, que nunca se extingue completamente. Alterna-se entre se divertir com sua tentativa desajeitada de encobrir sua pobreza e entre ficar deprimido com sua vida miserável. Esse romance sombrio e existencial é fascinante. É escrito em estilo ‘fluxo de consciência’, embora bastante comum hoje em dia, era bastante incomum em 1890. Achei a prosa extremamente poderosa, com cada palavra queimando com raiva, exasperação, desespero, frustração. O protagonista não se entrega à auto piedade, recorrendo por vezes ao humor descontraído, o que torna tudo mais suportável. ​ Do início ao fim, essa história é uma viagem insistente ao ser de um ser humano que vagueia pela grande cidade à beira de ser engolido e consumido pelas suas duras condições de vida. E é a descrição de uma luta desesperada para encontrar uma posição segura na vida. ​ Uma luta descrita em linguagem formidável por Hamsun. Se você é fascinado por literatura existencial com foco na mente humana, esse romance é leitura obrigatória. Não à toa, Hamsun foi chamado de Dostoiévski nórdico. Foi um dos pioneiros da literatura psicológica e considerado inspirador de autores como Kafka e Thomas Mann. Ele recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1920. Admirador da Alemanha desde os tempos de Otto von Bismarck, ele detestava o modo de vida promovido pelo expansionismo industrial patrocinado pelos ingleses. Então, na década de 1940, com mais de 80 anos, passou a apoiar abertamente o n4zism0. Em 1943, ao encontrar Adolf Hitler e Joseph Goebbels, ele presenteou o ministro de propaganda alemã com a medalha recebida no Nobel. E enfureceu Hitler queixando-se da violência das tropas alemãs na Noruega ocupada. Com o fim da guerra, em 1945, já aos 86 anos, ele foi julgado e condenado como colaboracionista. Teve de pagar uma multa que o deixou novamente pobre e passou o resto de seus dias preso/internado em um hospital psiquiátrico. Escritor de mão cheia, pagou um preço alto — justamente, diga-se — por sua detestável escolha política. E continua pagando: não há e nunca houve em toda a Noruega uma rua, estátua ou mesmo um selo em sua homenagem. 📚🥣👨🏽‍🏫✍🏽☕️🕰⌛️

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