A adaptação foi idealizada por franceses (supondo-se percepção mais íntima e detalhada sobre Verne), o material de publicação é de boa qualidade, as páginas são em tamanho grande e a edição é relativamente volumosa. Aspectos que destacam-se no primeiro contato.
No que interessa, a leitura foi envolvente e prazerosa, conservando a essência do clássico. Cada um tem sua percepção e na minha só não curti a economia em ilustrar momentos cativantes, como os eventos finais, em que cortaram o pedido de casamento entre Fogg e Auda (inusitadamente engraçado) e a corrida final para ganhar a aposta (muito resumido, diante de uma surpresa espetacular contra o tempo). O mesmo resumo apresenta-se na corrida do trenó, matando toda a ação e emoção do momento (como a perseguição pelos lobos). Detalhes, que mereciam apreciação...
Obviamente curti a leitura, no geral foi instigante, com desenhos simples que lembram toscamente a estética do Tintin e desenrolar com valorização dos cenários.
Outro dia uma HQ pareceu-me confusa com a ausência expressiva do narrador e nesta aqui, apesar da mesma característica, não houve confusão no entendimento. Em vários momentos o desenho fala por si e isso é algo que curto.
Eis duas observações que pareceram-me legais na percepção do universo verneano:
- o significado de "Passepartout", que no inconsciente ignorante associei a "passaporte", conformando-me nisso desde a leitura do clássico (que mancada! em verdade, vem do francês, significando "chave-mestra", numa alusão ao sujeito "virado" que era o empregado de Fogg, hábil em achar soluções);
- o contexto do livro, em que o tempo passou a ser metodicamente controlado em busca de eficiência em resultados positivos, associados a lucro com o advento da Revolução Industrial e valorização do taylorismo. O tempo, de forma figurada, era uma corrida, cheia de métodos e organizações, em empreendimentos visando conquistas e lucros. Então podemos dizer que o livro expressa uma metáfora a isso também.