Neto perdeu o emprego em duas circunstâncias bem ilustrativas. Na primeira, porque prolongou seu carnaval em um acampamento. Na segunda, no final da décade de 80, quando já com mais de vinte anos, forçou a sua saída para conseguir, a todo custo, dinheiro para assistir a um mega show de rock. Como o dia do pagamento cairia num sábado, o rapaz insistiu para receber o salário na sexta feira (e não na segunda), alegando que "precisava" viajar no final de semana. Ao ser informado de que o pagamento não seria antecipado, o jovem pediu demissão: "Bom, então me desculpa que eu tô saindo agora, que eu preciso arranjar esse dinheiro, que eu tenho que ir, eu tenho que ir...". O ímpeto juvenil, que se explica em grande parte pelo apelo do grupo ("Foi uma galera ver o show"), não logrou dobrar o comando fabril: "Eu acabei não conseguindo o dinheiro também. E perdi o emprego". Além de perder o espetáculo.
Os rapazes da RS-030 - jovens metropolitanos nos anos 80
Regina Weber
Gravataí e Cachoeirinha na mira de Regina Weber
Lançado pela Editora da Ufrgs ano passado, "Os rapazes da RS-030 – jovens metropolitanos nos anos 80" (135 p.), de Regina Weber, é um estudo definitivo à história das cidades de Gravataí e Cachoeirinha. Correto é dizer que, por inúmeras razões, há raríssimos trabalhos que focalizam estritamente estes dois municípios co-irmãos. Já quanto ao fato de o estudo de Regina Weber ser definitivo, é coisa que passa por outro prisma. Para a pesquisadora e doutora em Antropologia Social, a preocupação não foi a de comentar a vida geral, de base homogênea, como se fosse esta delimitada pela cultura genérica dos encontros, bailes ou rodas de chimarrão. Em sua versão dos fatos, há espaço para um pano de fundo assinado, entre outros, por Rolling Stones ou TNT em epígrafe, buscando analisar, conforme promete o título, a vivência da geração que por aqui perambulou, em constante inconformismo com as condições impostas por certos moldes culturais. Mas que moldes eram esses? Um deles, o molde assalariado de trabalho e a subserviência à vida operária e a ideologias de classe. Acertado é dizer que o enorme potencial industrial da região repercute em termos comportamentais nesse sentido, de criar uma cultura operária – que, evidentemente, também não é homogênea, mas que se faz presente em muitos setores, sejam eles familiares, em redes de trabalho ou em diversões específicas. Em seus méritos e deméritos, é este o mundo dos rapazes da RS-030, quando a um passo da vida adulta, lá no anos 80. Encontra-se, aí, uma das apostas teóricas que a pesquisadora leva a sério, buscando entrever quais as contradições comportamentais levadas a cabo por estes mesmos rapazes, circunscritos a um tempo e a uma época, em nível local e nacional. Importante rememoração disso tudo está contida no capítulo que trata do Movimento Ecológico Livre, o MEL. Em Gravataí, em vista dessas contradições, foi que ocorreu, contando com o envolvimento dessa gurizada, o primeiro grito coletivo em prol de um rio no Estado. Já um caso que beira a lenda é o de um rapaz do grupo que perdeu o emprego para ir a um show de heavy metal em São Paulo – aliás: conta-se que perdeu o emprego, não conseguiu dinheiro e não conseguiu viajar! Em vista de tais considerações, temos à frente um trabalho definitivo. Nele o leitor encontrará não a pretensão de uma conclusão explícita, orgânica ou julgadora. Encontrará sim o relato de histórias de vida daqui da região, que aqui se fizeram e que continuam a encontrar seus destinos, seja perto, seja distante. Ao ingressar no acervo das bibliotecas locais, os rapazes da RS-030 irão contar tudo isso e mais um pouco, dizendo enfim que o mundo agora é diferente, cheio de celulares, fibras óticas e tecnologias em flash – mas que sempre há um passado a se pensar. m.s. 19/2/05
Estatísticas
Avaliações
4 / 1- 5 estrelas0%
- 4 estrelas100%
- 3 estrelas0%
- 2 estrelas0%
- 1 estrelas0%