O processo de constituição da historiografia brasileira ocorreu basicamente ao longo do Segundo Reinado. Contou com a participação de eminentes personalidades, agrupadas em torno do recém fundado Instituto Histórico. Os brilhantes resultados a que chegaram devem-se não apenas à qualidade dos estudiosos --que terei oportunidade de referir expressamente adiante-- mas também ao fato de que souberam se aproximar da teoria histórica formada na Alemanha e que se coroa com a obra de Leopold Von Ranke (1795/1886). Na centúria seguinte, sofreu duas contestações. A primeira seria da lavra dos tradicionalistas católicos, preocupados em eximir os jesuítas das críticas que lhes haviam sido dirigidas por aqueles fundadores. Tratava-se entretanto de homens de grande cultura que, se carregaram nas tintas nesse ponto, souberam preservar e desenvolver aquele legado. Tenho em vista nomes como Hélio Viana (1908/1886) e Américo Jacobina Lacombe (1909/1993), para citar os mais destacados. A segunda contestação proveio do marxismo-positivismo que se abateu sobre o país, ao longo do pós-guerra. Poupados da crítica durante os vinte anos dos governos militares, valeram-se da circunstância para produzir, nos vinte anos subsequentes, toda sorte de disparates inimagináveis. Dominando cátedras universitárias e logrando ter alcançado posições em diversos órgãos de comunicação, estabeleceram no país um autêntico patrulhamento ideológico. Graças a isto, as iniciativas que tangenciam essa bitola estreita não chegam a prosperar. Valho-me de exemplos concretos. No ano de 2000, Lourenço Dantas Mota iniciou, na Editora SENAC, um projeto que poderia ter criado uma outra linha do que se poderia chamar de “interpretações do Brasil”, de padrão estritamente acadêmico --de que darei notícia no capítulo seguinte-- e que foi simplesmente abandonado. Algo de semelhante havia ocorrido na Universidade de Brasília, nos meados da década de oitenta. A abertura política teve ali o efeito paradoxal de instaurar “samba de uma letra só”. O marxismo-positivista brasileiro tem se revestido de feição nitidamente totalitária. Não consegue admitir a existência de oposição às suas sandices (o nome não é exagerado desde que não há ali idéias propriamente ditas). Foi-se o tempo em que havia no país “marxismo num clima ocidental de cultura”, parodiando a feliz expressão do eminente filósofo marxista que foi Rodolfo Mondolfo (1877/1976). De modo que, ao reunir, nesta segunda edição ampliada de Interpretações do Brasil (2000), os diversos ensaios que dediquei ao tema, no período desde então transcorrido, sinto-me no dever de deixar registrado que o espírito acadêmico e a honestidade intelectual sobrevivem neste país, em que pese a adversidade das condições existentes. Para tanto selecionei duas linhagens, a primeira constituída basicamente de sociólogos, que oferecem um quadro do país que, espero, venha a sobreviver quando da nação se apossar o inevitável cansaço --como diria Octávio Tarquino de Souza-- do processo em curso de esterilização das consciências.
