O meu primeiro contato com Cioran foi com ele jovem e ainda romeno e me impressionei com a escrita arrebatadora. Lendo distraidamente, seus aforismos parecem muito tristes e até desesperadores, uma angústia sem fim. Talvez por isso foi chamado de niilista. Mas a leitura mais atenta me fez perceber que ele é um gozador e usa o niilismo como linguagem para aproximar de Deus, pois essa é a única linguagem que os homens entendem atualmente na sua porca existência, então Cioran usa e abusa do vazio e inutilidade da existência humana para levarnos ao verdadeiro Vazio místico.
Cioran trata destes assuntos na obra: dor, angústia, amor, música, morte e santidade. A dor é o que eleva o homem, temos de aprender a amar a dor, pois amando-a não sofreremos com sua chegada. A dor extrema até transfigura a mente, então e bem-vinda toda doença e ferida.
A angústia está em saber que tudo é vão aqui em baixo, tudo é um absurdo, principalmente a morte; logo a morte é o maior dos absurdos, então não tem sentido o suicídio. Só o eterno pode acabar com essa angústia, pois é de um absurdo que não tem sentido algum ao homem, mas o encanta por sua estranheza.
O amor é sublime mas absurdo. O sexo é uma forma de êxtase divino, momentâneo e rápido, ao mesmo tempo perigoso, e devemos fugir dele, sempre torcendo para encontrá-lo. A mulher é fraca e sua fraqueza é tão forte que derruba o homem. Fuja das mulheres, mas sempre as ame.
Cioran falando de música é de todo sublime, realmente entendeu a alma da música. Bach é Deus, e tão Deus que criou um mundo melhor que o de Deus. Suas harmonias não levam aos céus, são o próprio Céu. Em Bach somente o Paraíso importa, mas em Mozart não, tudo importa e brinca com a maravilha da vida enquanto nos carrega aos céus. Com Mozart tudo é alegria. Com Beethoven não, aqui só há tensão redentora que nos leva a um Céu de sofrimento.
Morrer é o verdadeiro sentido da vida, las parece que nunca alcançamos a morte, todos estão morrendo ao meu redor, por que eu ainda não morri?
Em Cioran a santidade é o que vence o niilismo, a única coisa que vence e por isso mesmo que a maioria foge da santidade. Ser santo é transcender a natureza, a dor, a morte, o sexo e o absurdo não tem mais efeito no santo. Para o santo a dor é prazer, a morte é vida eterna, o êxtase divino faz do sexo uma poeira e o absurdo tem sentido. Mais impressiona Cioran são as santas. Como pode um ser tão pecaminoso como a mulher ter as santas mais sublimes, que ultrapassam de longe os santos? Isto é um mistério que ele não compreender e nem que compreender, pois os mistérios insolúveis são o sabor da vida.
Podemos dizer que em Cioran há 5 formas de vislumbrar Deus: o amor, o orgasmo, a santidade, as santas e Bach.