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    Don Juan (Narrado por ele mesmo) -

    Peter Handke

    Estação Liberdade
    2007
    140 páginas
    4h 40m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro
    2.8
    64 avaliações
    Leram83Lendo6Querem143Relendo0Abandonos6Resenhas8
    Favoritos1Desejados143Avaliaram64

    Don Juan (narrado por ele mesmo), apesar do seu subtítulo, é recontado, de fato, por um cozinheiro solitário e ocioso, ávido leitor, que, um belo dia, em meio a leituras de Racine e Pascal, decide dar um basta nos livros. Sua imprevista decisão coincide com a igualmente repentina e abrupta aterrissagem de Don Juan no jardim do albergue onde ele vive, nas ruínas do monastério de Port-Royal-des-Champs, na França. Não um Don Juan qualquer, mas o próprio Don Juan, a figura legendária cujas aventuras já foram contadas e recontadas por Tirso de Molina, Zorilla, Molière, Mozart, Kierkegaard, Ortega y Gasset, Camus, e que Peter Handke decide ambientar definitivamente na contemporaneidade. Ao longo dos sete dias de sua permanência em Port-Royal, breve repouso em seu perambular pelo mundo, Don Juan conta a seu anfitrião, enquanto este último cozinha para os dois, as aventuras vividas na semana precedente: sete dias, sete países diversos, sete mulheres diferentes. Ainda que sete seja um número mágico, o que importa aqui não são os números, mas as letras: “Não contar, e sim soletrar”. É apenas um dos indícios de que Handke, ele mesmo um narrador obsessivo, ao construir essa espécie de fábula, também está interessado nas implicações do narrar, no seu sentido, nas suas possibilidades e nas suas consequências. O Don Juan de Handke jamais seduziu, nunca foi seduzido. Seus encontros passionais se dão num encantamento desencantado, porque são inevitáveis. É seu olhar que funda o outro e desperta o desejo. Nessa intrincada relação entre narrativa, tempo e desejo; instante, história e eternidade, Handke nos conta uma história sem fim, mas “a definitiva e verdadeira história de Don Juan”, diante da qual todas as outras são falsas.

    Resenhas (8)Ver mais
    Leila de Carvalho e Gonçalves  picture
    Leila de Carvalho e Gonçalves 18/12/2019Resenhou um livro
    3 (Bom)

    Eros E Tânatos

    Em 2019, o Prêmio Nobel de Literatura concedido a Peter Handke, causou inúmeros protestos. Considerado racista, não é de hoje que suas declarações anti-OTAN e a favor da Sérvia tem lhe causado problemas. Ele já teve até um prêmio retirado e várias peças canceladas, em especial, após seu discurso de apoio a Slobodan Milosevic durante o enterro do ex-líder sérvio. Em contrapartida, são constantes os elogios a sua extensa obra, que consegue ter fôlego para escapar ilesa de seu posicionamento político. Inclusive, no Brasil, ele já teve vários livros editados, mas por ocasião da premiação, a maioria estava esgotada, um problema que provavelmente será contornado nos próximos meses graças a recente popularidade adquirida. Enfim, acabei optando pelo título que me pareceu mais atraente numa reduzida lista, na qual não constavam os mais celebrados pela crítica. Trata-se de ?Don Juan? (narrado por ele mesmo), um romance de enganosas 140 páginas, se tratado como rápida leitura, à medida que avancei lentamente, tentando compreender a complexa personagem construída por Handke. Por sinal, uma personagem criada por Tirso de Molina no século XVII e que desde então tem merecido inúmeras versões, como uma comédia de Molière, a ópera ?Don Giovanni? de Mozart e até um popular filme, ?Don Juan deMarco?, estrelado por Johnny Depp e Marlon Brando. Sinteticamente, o romance de Handke não é narrado pelo próprio Don Juan conforme o título propõe ser, sua história é contada por um ouvinte solitário, cozinheiro e dono de um albergue próximo aos escombros de Port Royal Des Champs, famigerado monastério francês. A personagem é seu único hóspede durante uma semana, pois o local durante o inverno fica praticamente às moscas, propiciando um contato mais estreito entre seu proprietário e essa estranha aparição que surpreendentemente veio parar em seu jardim e não admite qualquer intervenção durante seu relato que cobre a semana anterior, período que voltara a atividade após a morte de seu filho, uma perda que o distanciara das pessoas. Logo, sua confissão abrange sete aventuras, cada noite num local e com uma mulher diferente. Sete histórias que exibem estruturas e algumas personagens semelhantes e que vão ficando cada vez mais econômicas, já que a narrador decide poupar o leitor das recorrentes sincronicidades. E por falar em sincronicidade, o livro aborda a tempo de maneira muito peculiar, isto é, o tempo das histórias narradas e a passagem do tempo pelos jardins do albergue e ambos são cruéis com Don Juan. Paralelamente, Handke igualmente exibe a personagem de maneira original, chega a brincar com outras versões da lenda, inclusive, abarcando inovações, por exemplo, Don Juan não é um sedutor nem seduzido por suas amantes, mas tem poder de despertá-las da vida solitária que levam. Sem uma proposta moralizante ou apelo erótico, na verdade, ele parece encarnar ?uma alegoria da dupla freudiana Eros e Tânatos?, segundo o crítico afirma Márcio Seligmann-Silva em sua comentário sobre o livro para a Folha de São Paulo, em 21 de janeiro de 2008. Exibindo o preciosismo técnico do autor e uma boa tradução de Simone Homem de Melo, o livro me pareceu um requintado prato de um restaurante cinco estrelas porém de sabor insosso. Enfim, terei de ler mais de Handke, para avaliar se o Nobel realmente lhe caiu bem. Finalmente, levei cerca de um mês para receber o livro e ele faz parte de uma nova edição, isto é, acaba de sair do prelo e já apresenta o selo do Nobel de Literatura. Com capa brochura com abas, ele foi impresso em papel branco de boa opacidade e possui agradável diagramação. Recomendo.

    10 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    2.8 / 64
    • 5 estrelas6%
    • 4 estrelas13%
    • 3 estrelas42%
    • 2 estrelas23%
    • 1 estrelas16%
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    Peter Handke

    Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura 2019, Peter Handke é um dos maiores escritores de língua alemã. Tornou-se conhecido nos anos 1970 como roteirista de Wim Wenders e por obras como "O Medo do Goleiro Diante do Pênalti", "A Mulher Canhota" (também filmado por ele) e "Tarde de Um Escritor". Produto por excelência da dissolução do Império Austro-Húngaro e mais tarde da Iugoslávia (a mãe era eslovena, o pai austríaco), sua escrita é fortemente marcada pelo desassossego centro-europeu e das margens do Danúbio. Sua rebeldia é igualmente literária, com todo proveito para sua vasta e refinada obra.

    48 Livros
    13 Seguidores
    Caríntia, Áustria

    Peter Handke