Já gostava do estilo do P. Craig Russell devido a algumas histórias belamente desenhadas do universo Sandman (“Ramadan” e “Death and Venice”). Também cultivo um fascínio modesto por música clássica e mitologia. Portanto, uni o útil ao agradável lendo The Ring of the Nibelung, adaptação em quadrinhos do ciclo de quatro óperas épicas do compositor alemão Richard Wagner, planejada e ilustrada pelo talentoso desenhista citado.
Inspiradas por mitologia e folclore germânico e escandivo, as óperas abrangem da criação do mundo à obliteração de Valhalla, exibindo maquinações de deuses às vezes mesquinhos e traiçoeiros, dilemas universais de amor e cobiça, e um herói puro e superior que é a semente de algo mais belo e justo. Usa a mitologia como alegoria do colapso do capitalismo numa visão pueril e trágica da história humana.
Deixando de lado a dicotomia de doutrinas políticas é interessante ver a adaptação de uma arte focada nos sons para uma arte visual silenciosa. Sobressai a competência e engenhosidade do desenhista, capaz de dar vida e significado a momentos cruciais praticamente sem uso de sentenças. A criação do mundo e a imposição das Nornas ao deus caolho, a mudança dos deuses para a recém-construída Valhalla, o banquete mal passado do casamento de Siegfried e a sua redenção com Brunhildé são momentos para se degustar com os olhos.
Também sou admirador da obra fantástica do Tolkien. Nestas páginas eu não pude evitar ver Smaug repousando sobre o tesouro, Sméagol matando Déagol para tomar o Um Anel, Andúril sendo forjada a partir dos fragmentos de Narsil, Gandalf andarilho de manto cinzento, chapéu pontudo, barba e cajado compartilhando sabedoria, e, alvo de cobiça preferido dos fracos de espírito, o Um Anel para a todos governar. É muito legal ver de onde um dos pais de todo um gênero literário buscou sua inspiração.