Marisa nua e às vezes crua Marisa conta, numa crônica deste livro, que fez psicanálise individual e de grupo durante oito anos. Admite que isso lhe tenha sido útil, mas hoje em dia acha que a psicanálise está superada; e fala de uma tal bioenegética de Reich, que eu confesso não saber o que é. De qualquer maneira, leitor, ao abrir este livro você estará entrando no consultório do analista. Entre, sente-se, por favor. O analista é você. A cliente é que é aquela mulher pequenina e toda bonita que está deitada no sofá: Marisa Raja Gabaglia. Ela fala com volubilidade e graça. Às vezes começa a elevar a voz, ameaça a gritar. Controla-se depois, e faz ironia. Caçoa dos outros e, um pouco, de si mesma. Às vezes você achará que ela não devia usar aquele tom para falar de certas pessoas: você ficará, digamos assim, chocado. Mas apesar disso, ou por isso, não deixará de ouvir, mais e mais: ela é fascinante. A coluna diária de Marisa em Última Hora é isto: uma vitrine em que ela se expões, deitada no seu divã - nua. Agora me lembrei de uma última versão do excelente Haroldo Barbosa em que ele descrever "Lídia, a mulher tatuada". Um verso diz isto: "e nos dias de sol vê-se até Paquetá." Assim é a nossa inquietante e encantadora Marisa. (Nos dias de sol.) [Rubem Braga]
