O caderno das metáforas e das verdades
Chico Lopes é autor de "O estranho no corredor", pelo qual recebeu um Jabuti na categoria romance 2012. Ele ainda é autor de três livros de conto. Sua trajetória como escritor o torna um prosador irrepreensível. Mas e a poesia? "Caderno Provinciano" é a coletânea de poemas escritos entre 1980 e 2003. Está em sua segunda edição, agora pela Editora Patuá. A tarimba como prosador fez de Chico Lopes um poeta que narra pequenos enredos em seus poemas, que são longos e deliciosos. É preciso ler com atenção, mas o texto é leve, fluido, e tem-se a ímpressão de que ele trabalhou muito cada um dos poemas, até lhes dar uma forma final impecável. Há poesia em seus poemas (digo isso porque nem sempre um autor consegue fazer poesia com poemas) e em cada verso. Por causa disso, é muito difícil escolher trechos de seu livro para destacar. Mas note-se a beleza destes versos de "Estigma": "Ali estão os mortos, mãe e pai são tão indispensáveis e nunca os tenho! Ali estão as cobras, os credores, os dentes faiscantes do processo. Por toda parte há culpa, e ela nunca cessa, por toda parte o orgulho, a solidão voraz, a alma que se esfalfa em danação tenaz". Trata-se de uma estrofe que fala da dinâmica de praticamente todas as famílias mal-sucedidas. Há muita beleza também em "Elegia", de que destaco aqui a primeira estrofe: "Antes, era o riacho e tinha um som claro, água em meus lábios. Eu era largo, pequenino, eu era sino." É assim que Chico Lopes fala da infância, utilizando, como em todo o livro, metáforas inteligentes que fazem o leitor parar, reler o poema, uma, duas, três vezes. "Caderno Provinciano" é um livro que não se esgota. Por trás de cada palavra, há um sentido, ou dois, ou vários, que pedem atenção, oferecendo em troca o melhor que a poesia pode oferecer: a empatia. Quem busca a verdade da vida na filosofia, por exemplo, percebe, quando lê um poema de escol, que ali também há traços dessa verdade. Ler Chico Lopes em sua única obra poética é desvelar o que está obscuro, é desmascar a mentira, é fruir versos que não têm começo nem fim -- tem instantes duradouros.

