Os ensaios, assim como os contos, são um gênero peculiar e não atraem a todos. Quem ama, simplesmente adora e quem não gosta geralmente odeia. Simples assim. Dito isso, posso dizer que me enquadro dentre aqueles que adoram um bom ensaio. Doses elevadas de Waldo Emerson na adolescência e muito Sêneca e Nietzsche ainda nos tempos da faculdade me fizeram assim.
Esse "O mundo insone" é um ótimo livro de ensaios para quem curte o gênero. Para quem não conhece, Stefan Zweig é um escritor austríaco do começo de século, erudito daqueles de antigamente, como já não se fazem mais. Sabe de tudo um pouco, domina com maestria os assuntos que decidiu abordar e se comunica com uma precisão e fluência que só o idioma Alemão permitem (gostei bastante da tradução para o Português e das notas de rodapé, que são esclarecedoras sem serem excessivas).
O livro se divide basicamente em duas partes: ensaios sobre personalidades que exerceram influência sobre o autor e ensaios que abordam outros três temas: a guerra, os judeus e a modernidade (leia-se, em idos de 1930).
Os ensaios sobre as personalidades são muito bem escritos e logo no início me relembraram de uma visita ao cemitério Highgate em Londres, onde diante daqueles túmulos enormes de ilustres desconhecidos, o guia me disse que aquelas pessoas haviam sido muito famosas ou influentes em sua época, mas que de uma maneira ou de outra isso havia se perdido completamente no curso do século.
Assim, mesmo não tendo a menor ideia sobre quem foi Émile Verhaeren, apreciei imensamente o ensaio escrito sobre ele, fundamentado sobretudo na importância da amizade e no "saber viver". A estória do poeta que se revezava entre a periferia de Paris e uma casa no campo nos países baixos me lembrou um pouco de Van Gogh e dos quadros que ele pintava.
Romain Rolland é outro que eu desconhecia, mas a maneira como Stefan Zweig o descreveu, com tanta admiração, fez com que eu acabasse baixando o romance em três volumes que ele escreveu (disponível para ebooks e em Inglês).
O ensaio sobre Walther Rathenau ilustra com perfeição o que eram aqueles intelectuais judeus-alemães do começo do século passado. Gente do naipe de Walter Benjamin, que tinha uma capacidade impressionante, que fazia tudo muito bem e brilhava quando em público.
Me senti tocado pela forma como ele descreveu Joseph Roth, que eu também desconhecia e me pareceu ser uma figura bastante profunda e complexa, um tanto triste, razão pela qual também fui atrás dos livros que ele escreveu.
A cereja do bolo é realmente o ensaio sobre Montaigne que, sozinho, já mais do que vale o preço do livro. Em poucas páginas Stefan Zweig traça uma panorama completo do que foi a vida de Michel de Montaigne, do berço ao túmulo, e o faz de uma forma imensamente agradável e informativa. Desnecessário dizer que antes de terminar de ler o ensaio eu já tinha encomendado a nova versão dos "Ensaios" de Montaigne que acabaram de sair pela Editora 34.
Outro ensaio que me tocou aa alma foi o "A Viena de ontem", onde ele descreve o que foi aquele Viena de antes das guerras mundiais, cidade para onde os artistas (em especial os músicos) peregrinavam e procuravam se instalar para criar e viver a vida artística. Um lugar onde a arte e a cultura falavam mais alto, com inúmeros teatros e salas de concerto e onde mesmo os colegiais já tinham as suas sinfonias ou músicos preferidos. Dá vontade de pegar um avião e voar para Viena imediatamente, para ver tudo aquilo com nossos próprios olhos.
Os ensaios sobre a segunda guerra mundial e a questão judaica estão um pouco datados, porque foram escritos logo no início desses acontecimentos. Ele ainda não fazia ideia das coisas que a Alemanha de Hitler seria capaz de fazer e também não tinha a mínima ideia de que haveria um Estado judeu tão forte, organizado e militarizado na Palestina, como é Israel hoje. Ainda assim, esses ensaios não são perda de tempo em razão da erudição e da forma bela como Stefan Zweig se expressa.
O ensaio sobre a "monotização do mundo" mostra um Stefan Zweig ranzinza e chateado com o rádio e o cinema, diversões que ele considerava "leves" e "fáceis" e que faziam com que as pessoas de certa forma ficassem menos cultas e mais parecidas umas com as outras, perdendo a singularidade que tanta atração causava nele. Coitado, se tivesse vivido para ver a nossa época de smartphones e "reality shows", acho que teria se matado de novo.
Aliás, infelizmente, como tantos outros intelectuais e escritores excelentes, Stefan Zweig suicidou-se, ainda no curso da segunda guerra mundial e aqui no Brasil, o que é bastante triste, uma vez que estava no auge de sua capacidade e poderia ter produzido mais, nos deixando um número maior de obras.
Enfim, o livro é interessante para quem gosta de um ensaio bem escrito e ainda serve de trampolim para inúmeros outros autores que já não são muito famosos ou conhecidos atualmente. Para mim, além da excelente escrita, que muito me agradou, o livro foi particularmente especial porque Stefan Zweig (junto com Somerset Maugham e Lin Yutang), era um dos autores preferidos de meu avô (nascido em 1900), e há uma sensação indescritível e muito especial ao se ler e se encantar com as mesmas linhas que causaram igual impressão em um antepassado tão querido, há mais de meio século atrás. Recomendo!