Ficção e Confissão - Ensaios sobre Graciliano Ramos

    Antonio Candido

    Ouro sobre azul
    2012
    152 páginas
    5h 4m
    ISBN-13: 9788588777514
    Português Brasileiro

    O ensaio principal e mais extenso deste livro foi pu­blicado em 1955 como introdução geral à obra de Graciliano Ramos no primeiro volume, Caetés, e pressupõe que há nela uma pesquisa progressiva da perso­nalidade, quase sempre com manipulação ficcional de elementos autobiográficos, o que levou o romancista a ir passando para o relato direto da sua própria vida. O trânsito da ficção à confissão é evidente em Infância. Em todas as etapas dessa pesquisa angustiada, expressa por meio de uma escrita seca e admirável, transparece o negativismo de um escritor sem complacência consigo e com os outros, avesso às amenidades que cos­tumam atrair o leitor. O ensaio seguinte, Os bichos do subterrâneo, é uma apresentação de cunho expositivo da obra de Graciliano, procurando fazer justiça a Angústia, que sofrera restrições no ensaio anterior, enquanto Memórias do cárcere, talvez supervalorizado nele, é visto como menos valioso que a obra ficcional. Os dois ensaios finais são exercícios sobre recepção das obras literárias. No aparecimento de Caetés abo­rda a “crítica local” de Maceió no momento da pu­blicação do livro, bem compreendido e bem ava­liado pelos intelectuais da cidade, os quais perceberam imediatamente a força do grande romancista que sur­gia. A propósito, Antonio Candido faz uma análise de ti­po pouco freqüente da capa de Santa Rosa, encarada como uma espécie de crítica visual. O último ensaio, 50 anos de Vidas secas, se apóia em dois críticos da primeira hora, Almir de Andrade e, sobretudo, Lúcia Miguel Pereira, que viu com segurança os problemas de fatura, desde a natureza da composição por segmentos até a linguagem reduzida ao mínimo, como se tendesse ao silêncio. Este livro marca a posição do autor em face de um escritor que ele considera dos poucos mestres supremos da literatura brasileira, formando com Guimarães Rosa um contraponto fecundo, pois mostra que a nossa narrativa ficcional é capaz de criar, no mais alto nível, tanto obras lineares, de parcimônia extrema, quanto as que, no outro pólo, transfiguram o mundo pela riqueza verbal. Quando escreveu e publicou o ensaio que dá nome ao livro, Antonio Candido ainda era assistente de Sociologia, mas preparava-se para se dedicar apenas aos estudos literários, o que foi possível a partir de 1958, quando se tornou professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Assis, no interior do Estado de São Paulo, onde escreveu o segundo ensaio, Os bichos do subterrâneo. Os dois artigos finais, curtos e menos abrangentes, foram escritos quase trinta anos depois, quando se tratava de celebrar os cinqüentenários dos romances de Graciliano Ramos, já solidamente consagrado como um dos maiores escritores do Brasil. Naquela altura Antonio Candido estava aposentado, mas continuava a orientar trabalhos na pós-graduação da Faculdade de Filosofia da Univer­sidade de São Paulo, tendo publicado dois livros: Na sala de aula. Caderno de análise literária e A educação pela noite, respectivamente em 1985 e 1987.

    Edições (1)

    Ver mais
    • book cover
    Resenhas (2)Ver mais
    Wesley Moreira de Andrade picture
    Wesley Moreira de Andrade11/01/2017Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Ficção e confissão – Ensaios sobre Graciliano Ramos é uma compilação de textos críticos escritos por Antonio Candido sobre a obra de Graciliano Ramos. O leitor deste blog pode ter percebido que o Velho Graça tem sido um escritor recorrente entre os livros analisados na coluna “Na estante” e a leitura dos ensaios do célebre especialista literário ajuda a clarear ainda mais o entendimento a respeito dos trabalhos do autor de Vidas Secas, Angústia e São Bernardo. Primeiramente porque Candido faz uma análise precisa sobre os escritos de Graciliano, muitas vezes se opondo ao que os especialistas consideraram como qualidade ou unanimidade, principalmente no que concerne ao livro Angústia, por exemplo. Antonio Candido não se rende apenas em elogios formais, mas capta também os “defeitos” que perpassam algumas das estórias produzidas pelo escritor alagoano, defeitos estes que não eclipsaram a qualidade literária dos livros que escreveu. Candido verifica que a obra de Graciliano Ramos se divide entre duas fases, uma ficcional e outra memorialística. Não que uma não carregue características da outra, não são dois momentos estanques na carreira de Graciliano, pois a leitura das obras ditas “de memórias”, carregam um tratamento dos fatos com uso de elementos dos textos narrativos (como narrador, personagens, espaço, tempo etc.) além de agregar informações da vida de Graciliano que também se encontram reveladas, de certa forma, como situações imiscuídas nos enredos de seus textos ficcionais mais conhecidos. Acaba sendo revelador que, se o leitor quiser, poderá iniciar o contato com a obra graciliana pelos últimos textos que flertam com o autobiográfico (Infância e Memórias do Cárcere) para depois identificá-los nas narrativas redigidas anteriormente, ou vice-versa. Ficção e confissão traz consigo todo o domínio de escrita e o profundo conhecimento do fazer literário já tão disseminados de Antonio Candido, este que é um dos grandes nomes da crítica literária brasileira, ou seja, um gigante escrevendo sobre outro.

    curtir

    Estatísticas

    Avaliações

    4.6 / 49
    • 5 estrelas63%
    • 4 estrelas37%
    • 3 estrelas0%
    • 2 estrelas0%
    • 1 estrelas0%