É difícil, mas resolvi falar sobre "O resto é silêncio". Este romance, publicado em 1943, precede a ambiciosa saga "O tempo e o vento". Interessante perceber que o próprio autor, no prefácio desta edição, considera este livro o último passo à sua plena maturidade literária.
O enredo é simples: o leitor vai testemunhar os efeitos na vida de pessoas de diferentes classes sociais após presenciarem, cada uma a seu modo, o suicídio de uma mulher. O grosso da história se passa em apenas dois dias, mas acompanhamos pequenos saltos temporais ao passado quando necessário.
Erico discute aqui temas conhecidos do seu interesse: a luta de classes, o machismo, o moralismo, a traição, a esperança, a morte. Ele coloca, com a maestria que lhe é conhecida, cada um desses assuntos em suas personagens. Porém, creio que este livro possui duas barreiras para um leitor de primeira viagem: a primeira é o uso da técnica de contraponto, utilizada anteriormente por Erico em outro romance seu, "Caminhos cruzados", herança que vem originalmente de um dos seus autores preferidos, Aldous Huxley. A segunda é a maneira como ele caracteriza e localiza o espaço em que se passa a história, algo que pode excluir dos leitores a prazerosa sensação que só porto-alegrenses podem sentir ao ler o livro, algo parecido - e ao mesmo tempo diferente - com o que acontece aos leitores não baianos de Jorge Amado.
Para não me estender muito, posso terminar dizendo que a escrita de Erico é envolvente, indispensável. "O resto é silêncio" vale pelos pequenos deleites proporcionados aos leitores. Além disso, funciona como um conjunto de espelhos que projeta uma sociedade historicamente marcada por mazelas que a atormentam até hoje.