Quem Teme a Morte é uma fantasia afrofuturista de Nnedi Okorafor - mesma autora de Bruxa Akata - e publicado por aqui pela editora Geração. O livro nos leva por uma jornada através de uma África dividida pela guerra, onde uma garota considerada pária pode ser a única capaz de salvar o mundo.
Onyesonwu só entendeu porque todos a tratavam como uma pária aos 11 anos de idade. Foi quando sua mãe contou suas origens: ela não era filha do homem bondoso que estampava a única foto que sua mãe carregava durante os seis anos que viveram no deserto. Ela era fruto da violência, uma Ewu.
Ewu são crianças nascidas do estupro - uma das armas usadas pelos Nuru, o povo de pele clara que, de acordo com o Grande Livro, devem escravizar os Okeke, o povo de pele escura que ofendeu a Deusa Ani com sua tecnologia e destruiu a natureza. Okeke ou Nuru, todos eles acreditam que um Ewu está pré-disposto a violência. Portanto, acreditam que todos nascidos da violência só podem crescer para propagar mais violência.
Quando descobre sua origem, Onye faz de tudo para honrar a mãe e o pai - não o biológico, mas o homem que a acolheu e amou. No entanto, aos 11 anos, coisas estranhas começam a acontecer com ela - desde ficar transparente durante seu rito dos 11 anos até transformar-se em um pardal. E é nesse momento que ela descobre que também é um Eshu, uma pessoa dotada de poderes mágicos.
"Falhos, criaturas imperfeitas. É isso que nós dois somos, oga. É isso que TODOS nós somos."
No entanto, quanto mais crescem os poderes de Onye, mais perigo ela corre. E muito em breve ela descobrirá que os propósitos de seus poderes são muito maiores do que vingar a violência praticada contra sua mãe e tantas outras mulheres Okeke.
Eu confesso que comprei Quem Teme a Morte exclusivamente pelo preço, já que a sinopse mais me deixou confusa do que curiosa. Um tempo depois, li várias resenhas negativas e fiquei com um pé atrás. Ficou a impressão de que era um livro maçante, com uma história sem graça e que não cumpria o que prometia (no caso do Afrofuturismo, pois vi muitas pessoas que não tinham percebido a história como futurística).
Mas foi uma alegria sem fim descobrir que essa resenhas não estavam com nada.
Quem Teme a Morte é uma história que flui muito fácil e simples. Nos conectamos muito fácil com a Onye, que não é o tipo de personagem "folha branca" que muitas fantasias criam. Ela é teimosa, cabeça dura, emotiva e determinada. Ela é bastante sensível, ela ama forte e tem muito carisma. Me cativou muito fácil e bem cedo.
A história também foi bastante original e curiosa. A fantasia foi muito bem equilibrada com o romance, e Nnedi Okorafor explorou bastante os relacionamentos da Onye - com a mãe, o pai, Mwita, suas amigas Bita, Diti e Luyu, Ada e Aro... Ela tomou o cuidado de não dar nenhum papel de destaque que não tivesse uma função na história de Onye.
E quanto a questão do futurismo, eu acredito que as pessoas ainda se apegam muito a imagem de carros voadores e armas a laser como definição de "futurístico". Em Quem Teme a Morte, Nnedi Okorafor mostra uma sociedade que foi destruída - seja pela ira de uma deusa ou pelo impacto irreversível da destruição dos recursos naturais - e precisou recomeçar. Os computadores são apenas um resquício da sociedade avançada que, outrora, viveu ali.
Como eu já tinha visto na trilogia dos Espinhos, do Mark Lawrence, o futuro nem sempre é sinônimo de tecnologia avançada. Muitas vezes pode ser o que sobrou de uma guerra nuclear, por exemplo.
"Eu era jovem, mas odiava como um homem de meia idade no fim de sua vida."
Ler Quem Teme a Morte foi uma realização. A forma como a autora discutiu sexismo, estupro como arma de guerra, soldados crianças, a religião como justificativa para escravidão, exploração e morte foi muito bem feita. Todos os elementos do mundo atual que são inseridos e criticados dentro do contexto de fantasia foram muito bem construídos e tratados.
As personagens não eram, necessariamente, gostáveis, mas tinham um papel importante com suas aparições e suas ideias e ideais.
Em dado momento, quando o livro estava chegando ao fim, pensei que terminaria com um final mega aberto ou que teria alguma continuação da qual eu não estava ciente. Mas a forma como Nnedi Okorafor escolhe encerrar Quem Teme a Morte foi ousada, ainda que coerente com toda a história que pintou até ali. Desafio convenções clichês de fantasia e nos deixou pensando "e agora?" da melhor forma possível.
"O equilíbrio não pode ser quebrado, mas pode ser esticado. É aí que as coisas dão errado."
Gosto de pensar que Onye mudou o mundo para sempre.
Honestamente, se tiverem a oportunidade, peguem esse livro e leiam. E amem. Conheçam Onye, porque ela é maravilhosa e a história dela merece ser lida, é incrível. Uma fantasia que deixa muito livro cheio de hype no chinelo.