As Dunas Vermelhas - Romance em tempo de rebelião

    Nei Leandro de Castro

    Jovens Escribas
    2013
    264 páginas
    8h 48m
    ISBN-13: 9788566505276
    Português Brasileiro

    Na noite de 23 de novembro de 1935, alguns soldados do 21º Batalhão de Caçadores, sediado em Natal, tomaram o quartel onde serviam. Dali, junto com rebeldes civis, sob orientação do Partido Comunista, partiram para a tomada do poder constituído. Assaltaram o quartel da Polícia Militar, que caiu após 17 horas de intenso tiroteio. O governador Rafael Fernandes e outras autoridades refugiaram-se na residência do cônsul da Itália e não ofereceram a menor resistência. Logo, estava consolidada a insurreição, a primeira de cunho marxista do continente americano. A rebelião durou apenas 82 horas, por falta de estrutura, apoio popular e falha na conexão que previa levantes em vários estados brasileiros. Chamado pejorativamente de Intentona Comunista, o episódio é muito pouco estudado além das fronteiras do RN. Nei Leandro de Castro utiliza a insurreição natalense como pano de fundo para este romance, "As dunas vermelhas". Os fatos históricos são respeitados, personagens reais comparecem com seus nomes verdadeiros, mas não se trata propriamente de um romance histórico. Em essência, tramas de amor, traição, humor e crimes passionais prevalecem sobre o que ocorreu naqueles dias de novembro de 1935.

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    Lara Escóssia07/01/2023Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    A romântica e trágica Intentona Comunista em Castro

    “Dunas vermelhas: romance em tempos de rebelião”, de Nei Leandro de Castro, reeditado pelos Jovens Escribas em 2013, é um romance histórico dividido em duas partes: “Dias de Novembro”, que narra a conspiração em prol da Intentona Comunista em Natal de 1935, e “Dias de Rebelião”, que apresenta ao leitor o auge e a decadência da revolução. Essas duas partes, então, se organizam em capítulos de páginas únicas, com focos narrativos em personagens, a princípio, desconexas, mas que, conforme o enredo se desenrola, se encontram e influenciam umas as outras. O interessante de tais focos narrativos está justamente na profundeza das personagens, uma vez que, devido ao esmagador uso de sumários ao invés de cenas, parecem ser planas e, ou comunistas, ou integralistas, somente. No entanto, há figuras bem interessantes e com certa complexidade devido ao que representam: o sapateiro José Praxedes, o retrato do sonho do oprimido quando a educação não é libertadora; João Lopes, o Santa, a gravidade do racismo na luta brasileira de classes; o dr. João Medeiros, o nosso fútil e pedante metanarrador; e Aurélia, a mulher romântica. Destaco, ainda, esta última como a grande inspiradora para o subtítulo. É justamente pelas suas atitudes que a rebelião se inicia: quando, um dia antes da data marcada, Aurélia se envolve na morte do capitão fascista Arnaldo (não pelo “bom parto de Maria”, mas pelo seu individualismo). Assim, Aurélia, carrega os traços melancólicos, trágicos, fúnebres e contraditórios da erotização profana ultrarromântica, tão clássica na nossa literatura. Isto é, meio da mulher burguesa e angelical, o caos é instaurado na província e aproveitado para a fracassada revolução. Espelha-se, aqui, mais uma contradição dos rebeldes: como poderia ter êxito uma revolta comunista iniciada no individualismo? Em outras palavras, mesmo que nada os comunistas tivessem a ver com Aurélia, esse individualismo grita, primeiro, nas ações e nos pensamentos das personagens, e, segundo, na organização perspicaz dos capítulos curtíssimos e descontinuados pelo tempo da narrativa. Dessa forma, “Dunas vermelhas” explora e resgata o Romantismo brasileiro, no jeito tipicamente potiguar de não atender a escolas e tendências literárias, mas de reinventá-las em favor da nossa originalidade (Auta de Souza nos mostrou isso 100 anos antes), narrando, no século XXI, a histórica Intentona sob a visão poética, deliciosamente, como quem saboreia cachaça com caju à frente das águas bronzeadas pelo sol de Natal.

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