Em uma república capaz de conquistar e construir um império gigantesco, um dos maiores filósofos romanos de todos os tempos, Marco Túlio Cícero, (106-43 a.C.) - orador, escritor, advogado e político - descreve diálogos que exaltam a ética, a justiça e a boa-fé. Nesta obra clássica do pensamento da humanidade, que influenciou o Direito e os sistemas de governo, o leitor encontrará lições tanto jurídicas quanto políticas de que o interesse particular de cada um deve estar subordinado ao interesse superior do conjunto. Elaborada à moda dos diálogos platônicos, "Da República" é fundamental para a compreensão da doutrina política que influenciou a organização dos Estados, como por exemplo o brasileiro que segue o Direito Romano. A República, conceituada por Cipião, o Africano, como a reunião que tem seu fundamento no consentimento jurídico e na utilidade comum, era, para Cícero, idêntico não ao governo popular, mas ao constitucionalismo, o que implica os governantes ficarem sujeitos às mesmas leis que os governados. É possível verificar ideais de democracia no diálogo entre membros do Senado romano, ao declararem que: "quando o povo sabe manter suas prerrogativas não é possível encontrar mais glória, prosperidade e liberdade, porque o povo permanece árbitro das leis, dos juízes, da paz, da guerra, dos tratados, da vida e da fortuna de todos e de cada um; então, e só então, é a coisa pública coisa do povo". O autor que apresentou aos romanos as escolas da filosofia grega e que teve papel fundamental no desenho da história do mundo antigo, tendo contracenado com Julio Cesar, Pompeu e Marco Antonio, nos deixa ainda a seguinte mensagem: "Se as leis mudam, todo cidadão verdadeiramente virtuoso nem por isso deve deixar de seguir e observar as regras da eterna justiça, em lugar das de uma justiça convencional, posto que dar a cada um seu direito é próprio do homem bom e justo".
Da República -
Marco Túlio Cícero
Cícero é conhecido como o melhor orador e argumentador que Roma produziu. Neste livro ele discute a natureza das "coisas públicas" (res publica), ou seja, as interações entre estado, leis e cidadãos. Confesso que peguei esse livro mais pra admirar sua retórica do que pra apreciar sua filosofia. E que retórica! Cícero desenrola seu dicurso com a precisão de um cirurgião, nada está ali por acaso, cada sentença de seu texto tem um propósito. Ele expressa suas ideias na forma de um dialogo (inventado, obviamente) em que Scipius Africanus, o famoso destruidor de Cartago, discute com outros personagens históricos sobre as diferentes formas de governo (monarquia, aristocracia e democracia), sobre a história da cidade e do governo romano até então, sobre a lei e sobre os aspectos do cidadão ideal. As ideias em si servem mais como retrato da visao de mundo romana do que como fonte de inspiraçao para solucionar os problemas de hoje. Cícero era um aristocrata. Embora ele acreditasse que a participação do povo no governo fosse essencial para garantir a manutençao da liberdade, essa participaçao deveria ser limitada. Para ele o poder deveria ser concentrado nas mãos de um benevolente "monarca", que haveria de "cuidar do povo como um pai". Esse monarca seria apoiado intelectualmente por uma classe de aristocratas (que supostamente seriam mais sábios que um cidadao comum). É coincidencia que esse modelo de "governo perfeito" mimetizace justamente as instituiçoes romanas do Consulado e do (aristocrático) Senado? Não, não é. Os romanos eram cheios de si. Implicita em toda essa argumentaçao está a visão de divisao de classes dos romanos, e a ideia de que algumas pessoas (os aristocratas) são inerentemente superiores a outras (a plebe). O Estado, entretanto, estaria suscetivel a ruína caso houvesse deterioraçao moral da classe aristocrática. Por isso Cícero dedica o último terço do livro defendendo uma série de virtudes públicas do "cidadão ideal" que deviam ser adotadas pela aristocracia. Boa parte do texto foi perdida na transição pra idade média, o que complica a coisa toda. No fim dou 3 estrelas. As ideias, como era de se esperar, são ultrapassadas. Mas ainda são um bom retrato de como era a visao de mundo romana, o que é bem legal. Além de que a retórica é impecável.
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