O autor é apresentado no início da narrativa a uma cena que se aparenta ingênua: a reunião de uma família em meio a uma fazenda isolada no interior das Minas Gerais, motivada pelo aniversário de 88 anos da avó Maria José que sempre é retratada como uma senhora equilibrada e conciliadora, como quem já viveu o suficiente e quer passar seus últimos anos em paz. É o contraste que geralmente se observa entre a calma dos mais idosos e a ansiedade dos mais jovens.
Como fio-condutor que vai orientar a trama a história nos apresenta Larissa, a personagem principal, com seus 40 anos de idade. Carioca, em sua infância é retratada como uma menina tímida e inquieta, a quem os livros eram seu objeto de aconchego. Ao atingir a idade adulta ela se aventura no jornalismo, onde acaba por se apaixonar pelo atual marido Antônio, jornalista que chegara ao Rio de Janeiro vindo de uma temporada como correspondente em Nova York. Ao se conhecerem pela primeira vez em uma festa foi amor à primeira vista, rapidamente acham um apartamento para morar no Rio. Porém, no jornalismo, a incessante pressão pela produtividade e o clima constante de embates implacáveis acabam por consumi-la, e ela envereda pelo caminho da historiografia, reiniciando sua vida acadêmica como bacharel em história e iniciando o livro já com o mestrado. Traçou portanto um caminho que a fez se distanciar cada vez mais do marido com suas constantes viagens em busca de matérias para reportagens.
A história prossegue com relativa calma, até nos serem apresentados Alice e Hélio, respectivamente: a mãe de Larissa e seu tio. Esses dois irmãos viveram num passado que muitos até hoje se esforçam para colocar debaixo do tapete: a ditadura militar brasileira. No entanto viveram dois lados opostos naquele processo, Alice era militante política e lutava contra o regime, enquanto Hélio era militar e deu sua vida em prol da "segurança nacional". Os intensos atos repressivos, com as torturas que Alice sofreu e também o desaparecimento de seu marido acirrou ainda mais o conflito entre esses dois irmãos, rendendo sempre grandes discussões em todas as reuniões familiares.
Larissa então, cansada desse ambiente combativo, tenta de todas as formas se esquivar de tomar partido de algum lado, mas jamais imaginaria que ela seria testemunha presencial de um conflito que ocorreu séculos atrás. Perambulando pelas salas e corredores da fazenda ela acaba por estabelecer contato com Paulina, uma negra escrava que viveu nas Minas Gerais de algumas décadas antes da promulgação da Lei Áurea. Paulina lembra um pouco a escrava Isaura, não pela cor de sua pele, já que realmente era negra, mas por ser uma jovem escrava cheia de dotes e provida de muita inteligência. Paulina tinha um irmão: Bento, que, diferente dela que buscava a conciliação e a compra da liberdade por meios legais, acreditava que a liberdade só seria alcançada por meio da luta. Vemos portanto mais uma dupla de personagens antagônicos frutos de um mesmo período histórico.
Se a liberdade pode ser conquistada por meio da conciliação ou da luta é portanto a questão central que Larissa vai buscar responder, na medida em que novos fatos são desenterrados e trazidos à tona, inclusive sobre o destino de seu próprio pai após passar pelo DOI-CODI. O livro procura mostrar como a repressão sempre fez parte de nossa história, deixando marcas profundas, e como as dores anônimas são muito mais cruéis, porque não deixam registros.
Minha conclusão portanto é de que o livro foi escrito com o propósito de trazer mais consciência ao leitor de como nós brasileiros temos a mania de esquecer nosso passado e se tornar insensível a ele. E de como essa insensibilidade pode ser combustível para que esse eventos se repitam novamente em algum momento. No entanto, por mais que novos elementos fossem adicionados à narrativa, a existência de apenas um tema central acaba por torná-la um tanto enfadonha e sobremaneira confusa, visto que alguns desse elementos são incrivelmente fantásticos, como as visões realistas da personagem, como se ela fosse algum tipo de médium espiritual capacitada e entrar em contato com espíritos de ex-escravos.
Miriam Leitão classifica seu livro como "ficção adulta" e busca externar em palavras o seu próprio sofrimento durante o regime militar. No entanto, se a intenção era escrever centenas de páginas sobre os tais "tempos extremos" - com uma pesquisa que ela fez "ao longo de anos" como diz nos agradecimentos, envolvendo repórteres, historiadores e reunindo diversos documentos - que fizesse então um livro de história sobre a repressão. Me parece um erro querer expor fatos reais num livro banhado em tintas de "ficção", lemos a história e não sabemos se todos os fatos correspondem à realidade ou se foram inventados só para preencher a narrativa. Qual o nível de confiança o leitor deve ter durante a leitura da obra? A partir de qual momento estamos falando de ficção, e não de realidade? Acredito que sejam as perguntas que ficam no ar e que jamais são respondidas.