Como na noite em que Walter Dias visitou a filha, de novo os seus passos se detêm no patamar, descalça-se rente à parede com a agilidade duma sombra, prepara-se para subir a escada, e eu não posso dissuadi-lo nem detê-lo, pela simples razão de que desejo que atinja rapidamente o último degrau, abra a porta sem bater e entre pelo limiar apertado, sem dizer uma palavra. E foi assim que aconteceu. Ainda o tempo de reconstruir esses gestos não tinha decorrido, e já ele se encontrava a meio do soalho segurando os sapatos com uma das mãos. Chovia nessa noite distante de Inverno sobre a planície de areia,e o ruído da água nas telhas protegia-nos dos outros e do mundo como uma cortina cerrada que nenhuma força humana poderia rasgar. De outro modo, Walter não teria subido nem teria entrado no interior do quarto.
O Vale da Paixão -
Lídia Jorge
Resenha: O Vale da Paixão - Lídia Jorge
Alguns livros levam apenas alguns dias para serem lidos. Outros, meses. O Vale da Paixão ficou na última categoria comigo. Comecei a lê-lo em agosto do ano passado e terminei apenas agora. Eu também não o li continuamente não, em diversos momentos tive de “abandonar” a leitura, porque os meses finais do ano passado foram bem corridos. E, esse livro é daqueles que a gente simplesmente não consegue sentar e ler, num fôlego, 50 páginas. Não por ser chato (de maneira nenhuma!) e sim por ser complexo. Explico. Lídia Jorge é uma escritora portuguesa de muita importância para a literatura nacional. Ela possui formação em filologia (ciência que estuda criticamente os textos escritos antigos de uma dada língua, para recuperar seu significado) e é daquelas pessoas que colecionam títulos acadêmicos e literários os mais diversos. Sua obra é de peso, considerada como revolucionária da literatura portuguesa. Tal como obras de autoras brasileiras consagradas como Clarisse Lispector ou Rachel de Queiroz, a prosa de Lídia não é de fácil leitura e, por isso, talvez possa ser impopular. Mas, assim como Clarisse e Rachel representam algo incrível no quesito literário, também O Vale da Paixão é uma leitura obrigatória, pelo menos para pessoas que são da área das linguagens, como eu. A narrativa gira em torno de uma família residente em São Sebastião dos Valmares, uma aldeia próxima ao mar. Francisco Dias, o pai de família, comanda seus diversos filhos no trabalho árduo da propriedade, exceto o mais novo, Walter, que desde cedo se mostra um rebelde. Os protagonistas da história são, no entanto, Walter e sua filha. Por mais que a história seja interessante é a forma de narrar que prende, que nos faz refletir e pensar, que possui tanta beleza e complexidade que é preciso uma pausa para respirar, absorver e pensar no que se leu. “À distância, o tempo que iria iniciar-se parece um entreacto, uma rápida cena que decorre entre uma porta que se abre a Leste e uma outra que se fecha a Ocidente, e entre essas duas cortinas, ocorre um sussurro, um sobressalto, uma excitação, como se a areia fria do Inverno fervesse. Um vento soprando do interior da terra açoitasse os vestidos, as abas dos casacos, as copas dos guarda-chuvas. E tudo isso tivesse acontecido durante um só dia, uma só hora. Antes o silêncio, depois o silêncio. Como se esse tempo tivesse sido escavado no século para condensar a vida. Porque tudo o que aconteceu teve por finalidade aquele tempo, e tudo o que veio depois, dele decorreu como a réplica desse tumulto, desse foguete, essa combustão ocorrida no interior da casa e que se repercutia na vegetação, nas nuvens velozes que passavam em forma de peitos de rola, provenientes do mar.” pág. 81 Walter, o filho rebelde de Francisco Dias, leva uma vida dissoluta e acaba engravidando um jovem da vizinhança, Maria Ema. Grávida, a jovem é abandonada pelos pais na porta da casa de Valmares. (...) Continue lendo meus comentários sobre o livro lá no meu blog -->https://minhaurora.wordpress.com/2015/01/31/resenha-o-vale-da-paixao-lidia-jorge/
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