O pleito eleitoral de uma cidade fictícia vê-se fracassado após ser apurado que 70% dos eleitores votaram em branco. A partir deste ponto, os órgãos e agentes representativos do Estado retiram-se da cidade e a isolam. Mesmo sem a presença das instituições estatais, a vida na cidade segue o seu curso aparentemente normal, que se vê alterado, posteriormente, pelas ações de viés autoritário desencadeadas pelas autoridades públicas ávidas para incriminar cidadãos e comprovar falsamente a prática de um suposto atentado contra a ordem democrática. É a oportunidade criada pelo autor para conectar-se a "Ensaio sobre a Cegueira", dado que a heroína desta obra passa a ser a principal suspeita de ter orquestrado a "insurreição" eleitoral. O voto em branco é uma clara alusão ao descrédito dos cidadãos em relação ao Estado e ao regime democrático. A lucidez pode ser interpretada como um questionamento à necessidade do contrato social (Rosseau/ Hobbes), afinal, por que tudo parecia organizado na cidade mesmo sem a presença do Estado? Aos olhos do Leviatã, a situação não poderia ficar impune. Exatamente por isso, o Estado, na condição de detentor do monopólio da violência e controlador da informação encontra o bode expiatório e faz suas vítimas na tentativa de resgatar sua legitimidade, produzindo-se o desfecho trágico do livro com o assassinato dos personagens principais que ousaram ser lúcidos. A obra mostra-se extremamente atual, pois constitui um retrato da crise de legitimidade do regime democrático e das instituições estatais.
ensaio sobre a lucidez -
José Saramago
MEDIAfashion
2012
368 páginas
12h 16m
ISBN-13: 9788579490538
Português
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