Quadrinhos Weird
Sou um entusiasta tanto de quadrinhos, quanto do gênero terror, desde as lembranças mais antigas de minha vida, entretanto só vim a ter um contato mais aprofundado com a miscigenação destas minhas duas paixões: as HQS de terror, em 1990, aos dezesseis anos de idade, com a leitura do eletrizante e revolucionário arco da HQ do “Monstro do Pântano” intitulado “Gótico Americano”. Foi através dos roteiros do bruxo Alan Moore que tive minhas primeiras referências às obras de Lovecraft, Stephen King, Clive Barker, Carlos Castaneda etc. Também foram as páginas de “Swamp Thing” que me ensinaram de que existia ambiguidade moral na Literatura Fantástica com tramas que iam muito além do batidíssimo clichê Bem X Mal. “Monstro do Pântano” foi meu primeiro mergulho em quadrinhos de terror, e também em uma literatura mais adulta, porém eu já vinha namorando a superfície do gênero há uns bons dez anos antes do épico sobrenatural “Gótico Americano” aportar em bancas brasileiras. Minhas recordações mais primordiais com lobisomens, fantasmas e vampiros estampando capas de gibis foi lá pelo ano de 1980/1981 quando eu tinha uns seis, ou sete, anos de idade e era infantil o suficiente, mas com uma imaginação nem um pouco infértil, para acreditar que as criaturas bestiais que infestavam as páginas de publicações como “Calafrio” e “Kripta” fossem saltar das páginas para sugarem meu sangue. O que fazia com que eu mal folheasse as edições e as colocasse rapidamente de volta nas estantes das bancas de revistas. Como o medo, às vezes, caminha de braços dados com o fascínio aquelas publicações pulp, impressas em papel barato P&B e que podiam ser adquiridas a preço de banana, foram meu primeiro vislumbre do terror e o horror não apenas nas HQS, mas em toda a forma de arte em geral. Aquelas inesquecíveis capas espalhafatosamente góticas da “Calafrio”, “Kripta” e outras impressões vagabundas do gênero, que ainda bebiam na primordial fonte da E.C. Comics da década de 1950, injetaram nitroglicerina pura em meus neurônios escancarando-me as portas do gênero Fantástico em todas as mídias. Vários anos, e muitos livros, HQS e filmes de terror dos mais variados subgêneros, depois consigo o “download” de um daqueles ancestrais gibis que despertaram minha paixão pelo gênero do fantástico lá na “pré-histórica” década de 1980. Através de uma versão digitalizada da edição número 11 da “Kripta”, publicada originalmente em maio de 1977 pela extinta editora brasileira RGE, descubro que a “Kripta” na verdade era uma versão aportuguesada da palavra inglesa “Creepy” que foi uma revolucionária HQ lançada no início dos anos 1960 pela editora estadunidense “Warren Publishing”. Espécie de continuação dos tenebrosos trabalhos da E.C. Comics as HQS da Warren, assim como as revistas de terror e suspense da editora de William Gaines, inovaram a indústria dos “comics” por confiarem os conteúdos da “Creepy” a uma equipe de talentosos artistas que não tinham medo de chocar o público com excesso de “gore”, monstruosidades e histórias perturbadoras. “Folhar” esta edição virtual da Kripta/Creepy: que exibia em sua capa uma maravilhosa sugadora de sangue a lá Vampirella, foi para mim o mesmo que abrir uma velha arca do tesouro cujo conteúdo eu havia visto apenas de relance a mais de três décadas atrás. A espera valeu a pena. Apesar de terem, no mínimo, mais de quarenta anos de idade, os sete contos em quadrinhos que compõem o volume 11 da Kripta: “Os Demônios de Nob Hill”, “O Solitário”, “Presto, o Grande”, “O Dia do Vampiro 1992”, “A Múmia”, “O Arsenal de Kansas” e “O Espelho da Morte”, estão longe de serem datadas em termos de criatividade e imagens chocantes não perdendo em nada para qualquer bambambã dos “comics” de terror da atualidade como Steve Niles. O diferencial das HQS da Kripta em relação à suas predecessoras da E.C. Comics, além da violência mais acentuada de algumas tramas, é uma mestiçagem mais profunda entre terror e ficção científica presente nos roteiros que confere a histórias como “O Dia do Vampiro 1992” um delicioso sabor de “weird fiction” aproximando-as dos trabalhos de mestres do horror cósmico como Clark Ashton Smith e Lovecraft. Os desenhos desta edição também não ficam atrás com verdadeiras obras de arte de um barroquismo gótico que transborda energia e morbidez a cada quadro. Como mencionei anteriormente toda essa sofisticação em termos de roteiro e arte ocorre graças a um time de doutores em HQ que revolucionaram os comics. Nesta edição, por exemplo, brilham os talentos de José Ortiz (“Mágico Vento”), John Severin (“Conan”), Carmine Infantino (“Flash”), Jaime Brocal (“O Outro Necronomicon”), Steve Ditko (que ao lado de Stan Lee criou o Homem-Aranha), Bill Dubay (Vampirella), Archie Goodwin (que posteriormente se tornou um grande editor de quadrinhos) e outros artistas capazes de provocar taquicardia em qualquer fã, colecionador ou pesquisador de HQ. O que mais posso dizer a respeito deste maravilhoso “cult” dos quadrinhos? Apenas isso: seja você um aficionado tanto por quadrinhos, quanto pelo gênero terror como um todo, façam escavações arqueológicas em sebos e sites de HQ em busca de outras preciosidades da Warren Publisching, pois eu já estou fazendo isso faz tempo. Até a próxima e ótimos pesadelos a todos.


