A literatura japonesa nos apresenta uma variedade ímpar. O repertório de escrita e qualidade é tão grande que chega encher de brilho os olhos dos leitores. Foi assim que me senti ao ler “O Conto da Deusa” o romance de fantasia escrito e publicado em 2014 pela aclamada escritora japonesa de thrillers Natsuo Kirino. Além de grande escritora de thrillers Natsuo também apresenta uma obra bastante diversificada em termos de estilos literários. Nessa história temos todos os elementos de uma narrativa cativante, uma escrita precisa e de linguagem simples. Uma história trágica de amor e dor, de mistérios e lendas populares articuladas uma narrativa fantástica singular.
Narrado em 1° pessoa “O Conto da Deusa” trás a história de Namima, uma jovem de dezesseis anos que se torna miko (sacerdotisa) das trevas, e que vive na ilha Umehibe (Ilha das cobras marinhas). A pequena ilha tem um formato de gota, e fica isolada das grandes ilhas Yamato, a mais ao leste do Japão. Namima é a narradora de sua própria história em 70% do texto. Nessa primeira parte temos a história das duas irmãs, Namina que é uma Yin (uma sacerdotisa das trevas); e Kamikuu, que é uma Yang (uma sacerdotisa da luz). A crueldade de uma sociedade que segrega seus membros, mas que valoriza as deusas e suas enviadas na terra ganha formas ritualísticas nos simbolismos. O amor de Namina por Mahito e as consequências de uma fuga inesperada enchem a trama de mais mistério e empolgação, quebrando a ordem natural da ilha.
O equilíbrio entre os mundos (dos vivos e dos mortos) é rompido de forma que a Namina vai contando como ela morreu e foi parar nesse mundo dos mortos, de como ela de tornou a sacerdotisa da senhora das trevas, até a história deusa Izanami. Na segunda do parte do livro temos a narração da vida do deus Izanaki incorporado ao corpo de um humano (Yakinahiko) e a filha de Namina, a jovem Yayoi. A fúria da deusa Izanami é explicada através da lenda do nascimento do mundo, das transformações do amor e da separação ante a um destino marcado pelo rancor, vingança, medo e a sensibilidade da vida e da força da morte. A autora encontrou formas muito interessantes de articular uma narrativa de amor trágico a uma história de lendas populares e a mística japonesa. Essa história remonta as grandes lendas japonesas, envoltas em mistérios e tramas onde deuses se relacionam com mortais, de desejos, sentimentos de fúria, de perdão e de maldiçoes. Uma variada gama de lendas populares, articuladas numa narrativa primorosa, fantástica, sensível e sagaz. Natsuo Kirino escreve no “fio da navalha”, apresenta os personagens de uma forma própria e faz uma imersão no mistério fantástico.
A linguagem simples, quase despretensiosa e sem firulas retóricas vai ganhando forma, e nós vamos sendo transportados para a atmosfera perdida daquele universo. Um universo próprio, que mostra a vida insólita dos ilhéus japoneses e de suas almas presas ao destino traçado pelos desejos e sentimentos dos deuses. Esse tipo de trama é traçada através do paralelo moral, colocando os desejos dos deuses como voláteis, passionais e que estão dispostos a mudar na maior parte do tempo. Esse componente volátil dos deuses vai colocando o destino destes pobres mortais a uma sorte, aos humores e sentimentos divinos. Particularmente eu fiquei muito apaixonado pela escrita da autora. Kirino utiliza a figura da deusa feminina com muita sensibilidade e responsabilidade, criando uma narrativa fenomenal. Uma narrativa que considero impar, já que é raro eu colocar narrativas de fantasias como favoritas. Verdadeiramente diferente de tudo o que li.