Para ser sincero, eu não sei nem por onde começar a falar sobre “À Noite Andamos em Círculos”, pois a história aparentava ser, em um primeiro momento, tão boba, simples e sem ter muito a contar, que eu me peguei assustado em saber que, independente do que acontecesse no final, o livro já estava entre as melhores do ano desde a página 100.
O porquê de o livro ter sido tão bom se deve a narrativa do autor, Daniel Alarcón, pois ele mostra para nós, leitores, que está no comando do livro desde a primeira letra, e que nada vai sair dos eixos. Daniel vai contar o que ele julga ser necessário, e se o livro for evasivo, também será proposital, e não porque o autor perdeu a mão.
Sabe, é como se o autor tivesse me convidado para sentar e dito: “Vou contar uma história, mas pode ser um pouco longa e confusa”, e eu passei a ouvir despretensiosamente, até que me vi totalmente envolvido. A história é, sim, confusa, mas em nenhum momento precisei voltar algum trecho ou me perguntei quem era tal personagem. A história, contada da melhor maneira que ele achou, foi extremamente amarrada e interessante, e mesmo quando era obrigado a pausar a leitura, imaginava dizendo: “Depois a gente volta a conversar”.
É importante lembrar que o livro não é cheio de citações ou frases de efeito, e eu, inclusive, não marquei nenhuma. O bacana é ver como o autor consegue controlar todas as camadas criadas, sem se perder em nenhum momento; trocando facilmente o presente pelo passado, e do passado para outro período mais distante ainda. Ou ainda de personagens e cenários de maneira tão habilidosa e suave, que não temos dificuldades em nos habituar com a diferença.
O legal é não saber tanto assim da história, pois o livro começa no meio da história, e o autor faz suas viagens a partir de determinado ponto, mas o livro fala, basicamente, sobre Nelson, um cara com a vida completamente parada, por conta do abandono do irmão, que está nos EUA; da mãe, que ficou viúva e da ex, que está com outro. Mas então ele é escolhido para encenar uma peça, e essa turnê modificará a sua vida em todos os aspectos, até os mais inimagináveis.
Um livro simples, com personagens carismáticos, mas ao mesmo tempo complexo, com tramas conhecidas do dia-a-dia, narradas de uma maneira a deixar o leitor grudado, ansioso pela resolução, “À Noite Andamos em Círculos” surpreende não pelas palavras difíceis e reflexivas, mas pela simplicidade da vida (e do autor em contar uma história). O livro é, em suma, um relato sincero e sufocante de como achamos ser algo na vida, quando, na verdade, não somos nada.