Lionel Shriver se tornou uma escritora best-seller após seu oitavo romance Precisamos Falar Sobre o Kevin. No entanto, a autora já vinha publicando há 17 anos antes de chamar a atenção dos leitores ao vencer o Orange Prize for Fiction em 2005 impulsionando assim seu nome na literatura contemporânea.
The Female of The Species é o primeiro romance de Shriver publicado em 1986. Em sua estreia o livro foi bem recebido pela crítica e teve um numero razoável de vendas. Publishers Weekly descreveu o livro como “Um primeiro romance confiante e consumidor.” Cleveland Plain Dealer declarou: “Um começo ousado para uma jovem romancista, audaz em suas escolhas e por vezes tecnicamente brilhante” e Richmond Times-Dispatch comentou “Do começo ao fim, The Female of the Species é inteligente, sensual, absolutamente fascinante, e minuciosamente extraordinário. E isso nem é metade dos elogios que o livro merece”. Para uma estreia Lionel Shriver pareceu ter conquistado a crítica, embora a jornada para se tornar uma escritora best-seller fosse acontecer 17 anos depois.
O livro traz a mundialmente renomada antropóloga Gray Kaiser. Aos 60 anos de idade Kaiser declara ao seu fiel assistente, Errol McEchern, que cansou de ser um personagem, de ser sempre a invencível e bem sucedida antropóloga, ela está exausta. Errol que trabalha há mais de 20 anos ao lado de Gray, assiste a decadência de sua chefe quando ela se apaixona pelo jovem Raphael Sarasola, que consegue tornar a forte antropóloga em uma mulher miserável e infeliz com sua manipulação cruel.
“- Errol, estou cansada de ser um personagem. – Gray reclina-se em sua cadeira. – Quando conheço as pessoas elas esperam, você sabe, a Gray Kaser.
- Você é a Gray Kaser.
- O que estou te dizendo é que isso é exaustivo.
- Só hoje, Gray. Hoje é exaustivo. – Ambos sentados respiram profundamente.
- Você acha que tenho medo de envelhecer? – pergunta Gray.
- A maioria das pessoas tem.
- Bem, você está enganado. Eu planejei ser uma velha senhora magnífica desde que eu tinha doze anos. Katharine Hepburn: franca, arrogante e abusiva. Mas eu tenho ensaiado essa velha senhora há quase cinquenta anos e agora ela me mata de tédio.”*
Errol convence Gray a fazer um documentário sobre seu primeiro triunfo obtido aos 22 anos que a tornou conhecida mundialmente no campo da antropologia. Enquanto fazem esse documentário Gray se perde nas memórias do passado. No começo de sua carreira Gray foi a assistente do Dr. Richardson, um grande antropólogo. Um dia um queniano foi ao escritório do Dr. Richardson e encontrou Gray. Logo a jovem descobriu que uma aldeia no Quênia, que nunca teve contato com a civilização, recentemente recebera a visita do primeiro homem branco. Ao vê-lo os aldeões acreditaram que ele fosse um Deus, além da pele branca que era novidade para aquele povo, o homem branco trazia uma arma, que fascinou a tribo e os fez ter a certeza que se tratava de poderes místicos. Esse homem branco é Charlie Corgie que fugiu da Segunda Guerra Mundial e passou a ser deus nessa aldeia. Gray arrumou as malas e foi lá, estudar essa aldeia e desmascarar o “deus branco”.
- Você tem opiniões demais.
Gray parou e olhou para ele.
- Sim. – foi tudo que ela disse. Foi um momento estranho. Sempre é estranho quando as pessoas não têm mais nada a acrescentar ou refutar; quando elas concordam.
- Que diabos você faz aqui? – Corgie perguntou abruptamente.
- Sou uma antropóloga. Vim estudar essas pessoas.
- Sozinha?
Gray olhou para o cano da arma de Corgie. Seria sábio criar tropas na retaguarda.
- Sim. – disse Gray desafiadoramente.
- E quem sabe que você está aqui?
- Alguns Masais.
Corgie sorriu.
- Você não precisava admitir isso. Pois mesmo sozinha você de fato apresenta uma espécie de problema.
- Como?
- Eles pensam que sou o Fantasma do Natal Passado ou alguma coisa do gênero. Jesus. Gary Cooper. Um ser especial, de qualquer forma. Como Zeus. Agora somos dois.
- Até as divindades vem em dois sexos. Você não está a par da sua mitologia.*
O assistente de Gray a convence a fazer um documentário dessa experiência que rendeu o primeiro livro da antropóloga. Nessa segunda visita ao Quênia Gray conhece Raphael que faz parte da equipe e logo se torna o ator a fazer o papel de Corgie. Depois das filmagens todos retornam aos Estados Unidos, onde Gray é empurrada em queda-livre num relacionamento com o calculador e interesseiro Raphael.
"Raphael parecia como se alguém tivesse feito algo terrível contra ele em algum momento, mas não como se isso fosse uma ofensa que ele planejava retribuir. Não que ele não tivesse gosto pela vingança; ele entendia para seu desanimo que não havia tal coisa. Nunca era possível fazer algo de volta para alguém que desfaria o que ela tivesse feito contra você. Seu único poder era criar mais dor, se este fosse seu prazer. Essa era uma percepção madura para alguém da idade dele, era com certeza algo peculiar para emanar." *
A narrativa do livro não é linear, os personagens revivem suas memórias em vários momentos, por isso o enredo brinca com um ir e vir entre passado e presente. Os primeiros capítulos retratam a jovem Gray Kaiser na aldeia com Corgie, o deus branco. Os diálogos entre esses personagens são arrebatadores, e essa parte da história é a mais interessante, infelizmente ela é descrita em poucos capítulos.
O enredo possui inúmeras falhas e incongruências, no entanto, ao findar a leitura essas imperfeições são minúsculas perto do romance como um todo. Os protagonistas criados por Shriver sempre são cativantes e fascinantes, por razões distintas (vide Eva Khatchadourian), em The Female of The Species, porém, a protagonista é ofuscada por outro personagem: Errol McEchern. Gray Kaiser é fascinante em sua versão de 22 anos, mas a versão de 60 anos é menos atrativa, isso é proposital, uma vez que a autora quer mostrar a desconstrução de uma forte personalidade devido a uma grande paixão. Infelizmente (ou felizmente?) isso destaca Errol.
“Sua paixão secreta era juntar os pedaços da vida dos outros. Indo muito além da fofoca corriqueira, Errol lançava-se dentro da história que não era a sua como se caísse de uma altura, em um transe vertiginoso em ser o outro, isso por vezes o assustava.”*
Errol McEchern conhece Gray Kaiser há 25 anos, ele é o melhor amigo dela, sabe tudo sobre Kaiser e nutre um amor platônico por ela. Errol é sarcástico e cínico o que gera momentos e diálogos memoráveis ao longo da história. Além disso, o personagem tem uma mente peculiar: ele tenta entender as pessoas criando um filme em sua cabeça. Um exemplo são suas indagações a respeito de Raphael, Errol pega as informações que possui sobre o rapaz e vai reconstruindo sua infância, numa tentativa de entender melhor suas motivações e personalidade. Esses capítulos são incríveis e o desfecho do livro também evidência a importância de Errol para com uma história que ele finalmente se torna autor, ator e diretor, e não um simples coadjuvante na história de Gray.
“- Bem, você dois são só amigos, não são?
- Oh, somos só Amigos, com A maiúsculo. Devíamos ter camisetas escrito: Só Amigos. Botões de lapela. Pesos de papéis para nossas mesas. Sinto que estou trabalhando por um maldito emblema de mérito.”*
O livro também retrata a dinâmica dos relacionamentos funcionam, seja eles entre amigos (Gray e Errol), familiares (Raphael e seu pai, Errol e sua irmã), colegas de trabalho, cônjuges e muitos outros, mostrando a imperfeição de todos eles e lembrando por diversas vezes que “as pessoas se colocam nas situações na qual elas se colocam”, ou seja, cada um é responsável por buscar sua felicidade e não em procurar um culpado para suas infelicidades. No demais The Female of The Species é uma estreia digna de Lionel Shriver.
"Eu perdi Errol. Observei a forma com que as pessoas amam e tem famílias e resolvem as diferenças, e chegou a hora de eu mesma fazer isso e parar de fazer anotações. Só agora, Errol, estou preparada para viver a minha vida. Cansei de ser forte. Se alguém me disser algo maldoso, quero chorar. Não quer o poder a menos que eu possa usa-lo para ajudar as pessoas pelas quais me importo."*
* Tradução minha