Martinho Lutero
Martinho Lutero foi um monge agostiniano que em 1517 apregoou 95 teses à porta da Catedral de Wittenberg.
As teses de Lutero divergiam de alguns dogmas da Igreja e, por este motivo, foi convocado a se retratar perante as autoridades eclesiásticas. Lutero representava na época um modelo da alta erudição, pois, desde 1513 dava preleções na Universidade de Wittenberg, a qual havia passado por uma reforma curricular na faculdade de teologia, ao invés de estudos tomistas e escolásticos, os estudos agostinianos e a Bíblia passaram a compor a principal grade curricular.
Lutero escreveu suas teses em latim, enquanto a maioria do povo sabia sequer o alemão, com isso, a proposta primária de Lutero era acadêmica, queria ele um debate público com os teólogos da igreja.
O papa da época era Leão X, o qual em um primeiro momento não deu a devida atenção ao monge agostiniano e designou outras autoridades da igreja a refutar seus escritos.
Lutero logo foi considerado herege pela Igreja, e deveria ele ser entregue as autoridades, contudo, o destino de Lutero não foi o mesmo de outros homens que levaram a mesma alcunha, tais como: John Wyclif e John Huss . Os fatos políticos e econômicos corroboraram para que Lutero fosse posto a tutela dos líderes políticos da região. Ademais, Leão X, ambicioso em construir a Basílica de São Pedro sufocava diversos reinos aumentando a cobrança de indulgências.
Essa conjectura fez com que Lutero fosse protegido por Frederico – o sábio – então príncipe e patrono da Universidade de Wittenberg. A Igreja também precisava de Frederico, visto que, existia uma eminente preocupação acerca dos turcos que ameaçavam a Croácia e a Hungria. Foi nesse clima conciliador entre o papa Leão X e Frederico que Lutero pôde se defender por meio de inúmeros debates. Também vale salientar que Lutero era apoiado por inúmeros humanistas e nobres, os quais o saudavam como o “libertador da Alemanha”.
Após diversos debates, Lutero foi excomungado no dia 03 de Janeiro de 1521, pela bula Decet Romanuns Pontificeram. Lutero ainda teve outra chance em se retratar com a Igreja em Worms, porém, sua resposta aos seus opositores foi a seguinte:
“A menos que eu seja convencido pelo testemunho das Escrituras ou pela razão manifesta (...), eu estou preso pelas passagens da Escritura que citei e minha consciência é cativa da palavra de Deus. Eu não posso e não irei retratar-me de nada, pois não é seguro nem certo ir contra a própria consciência (não posso de outro modo, cá estou). Que Deus me ajude. Amém”.
Após desafiar os poderes políticos e eclesiásticos da época, os quais se mesclavam entre si, Lutero foi levado ao castelo de Frederico em Wartburgo, no qual permaneceu por quase um ano. Após esse período retornou a sua cidade e foi um dos arautos da reforma protestante.
Melanchthon: mestre da Alemanha
Philipp Melanchthon veio de uma tradicional família humanista, seu tio-avô foi John Reuchlin. Melanchthon era formado em artes na Universidade de Heidelberg e tinha um mestrado também em artes na Universidade de Tübingen. Com as reformas curriculares na Universidade de Wittenberg, Melanchthon foi nomeado como primeiro professor de grego em 1518.
Melanchthon elaborou durante a reforma a declaração confessional, a qual foi lida em Augsburgo em 1530. Esse documento ainda hoje tem um caráter fundamental para o luteranismo.
Lutero e Melanchthon caminharam juntos durante as reformas religiosas. Enquanto Lutero é considerado o reformista pelo seu comportamento profético, cabe a Melanchthon o título honorifico de teólogo da Reforma.
A estátua de Philipp Melanchthon na Alemanha pode ser vista em meus albúns no Picassa.
Karlstadt:"Irmão Andrè"
Quem ficou à frente da Reforma em Wittenberg no período em que Lutero estava escondido no Castelo de Frederico foi Karlstadt, o qual promovia nessa cidade a destruição das imagens e escrevia sobre a Ceia do Senhor e o batismo de crianças.
Quando Lutero voltou a Wittenberg refutou a iconoclastia de Karlstadt, posteriormente, este reconheceu que tinha agido buscando o status de líder reformista, o qual era atribuído a Lutero. Por causa de sua confissão pelo apego à glória, Karlstadt renunciou publicamente os seus títulos de doutorado em teologia, direito civil e direito canônico, que o tornava catedrático e arquidiacono. Deixou a cátedra, pediu para ser chamado de "irmão André" e resolveu ganhar o pão com o suor do seu rosto, chegou a dizer que as bolhas nas mãos eram mais honrosas do que os anéis de ouro nos dedos. Karlstadt começou a influenciar as classes mais baixas da sociedade (artesões e agricultores) e deu vigor a sua teologia, a qual era eqüidistante da escrita por Lutero. Enquanto Karlstadt enfatizava a teologia da regeneração, Lutero dava ênfase à justificação, Lutero também enxergava Karlstadt como apoiador da causa de Tomás Müntzer, embora Karlstadt não o apoiasse.
Após isso, a vida de Karlstadt mudou significativamente, foi pastor de uma pequena comunidade, e também andou como um pregador itinerante. Em Zurique, Zwínglio o ajudou e Karlstadt foi diácono da grande catedral e capelão do hospital. Aquele que foi o segundo homem da Reforma em Wittenberg, agora passaria por onze anos criativos de vida entre os pais do protestantismo reformado suíço.
Karlstadt foi um homem de influência por todo lugar que passou, mesmo após a sua morte em 1541 pela peste, seus escritos continuaram a serem lidos secretamente.
Com a sua teologia do renascimento e da santificação, Karlstadt foi um precursor da teologia pietista.
Tomás Müntzer
São pouco precisas as informações a respeito do nascimento e período de infância de Tomás Müntzer, provavelmente, foi de uma família abastada; estudou na Universidade de Wittenberg, onde obteve o bacharelado e o mestrado em humanidades, também conseguiu o bacharelado em escrituras.
O que dizer de Tomás Müntzer? Para muitos ele é um revolucionário, para outros, um servo de Deus. Lutero, por exemplo, atribuía qualquer revolução a Tomás Müntzer.
Müntzer tinha o intuito de estabelecer o reino de Deus na terra, mas, antes todos os ímpios deveriam morrer através de um julgamento público. Dirigiu sua pregação contra a injustiça social, tanto do cidadão comum, quanto do clero e, logo, se uniu à causa camponesa.
Müntzer leu livros de São Jerônimo e desde o início se interessou pela vida asceta, inclusive matrimonial, logo, sua pregação também foi direcionada contra os reformadores de Wittenberg que estavam casando.
Entre 1524-1526, ocorreu a guerra camponesa alemã, todavia, os envolvidos não eram apenas camponeses, mas o homem comum: o mineiro, o carpinteiro, o ferreiro, enfim, as pessoas desprovidas de poder político. Esta guerra provocou a morte de 6.000 camponeses, Müntzer que estava na guerra fugiu para um sótão, mas foi descoberto e executado à espada. Seu corpo e sua cabeça foram exibidos como advertência a todos.
Carter Lindeberg ressalta que os interesses de Müntzer não eram idênticos aos dos camponeses. Para esse historiador Müntzer combatia a opressão e a miséria social, pois isto impossibilitava o homem comum de ler a Bíblia e chegar a fé.
As leituras sobre Müntzer oscilam entre um romantismo revolucionário, ou frias passagens históricas, quase o demonizando como um anarquista social.
Zwínglio e a Reforma em Zurique
A Reforma na Suíça veio ao público com o chamado: “caso das salchichas”. Durante a quaresma as pessoas não podiam comer carne, no entanto, um impressor da época estava em apertos e queria concluir a sua obra, uma nova edição das epístolas de Paulo. Para conseguir finalizar o seu intento ele serviu salchichas para o povo, isto provocou a quebra do jejum da quaresma e o poder eclesiástico se sentiu ridicularizado. O conselho da cidade prendeu o impressor Froschauer, todavia, ao invés da confusão se desfazer com o aprisionamento do sujeito, ela tomou proporções significativas quando Zwínglio, que na época exercia uma posição eminente como sacerdote do povo junto à Catedral de Zurique tomou a defesa do "transgressor". Em sua catedral ele pregou um sermão sobre: “a escolha e a liberdade dos alimentos”. Logo, seu sermão foi impresso e se tornou um panfleto, a partir daí, Zwínglio declarou abertamente sua posição contrária à autoridade eclesiástica e política.
Ulrico Zwínglio (1484-1531) nasceu em uma próspera família camponesa em Wildhaus, aos 14 anos foi introduzido ao movimento humanista, também se dedicou à filosofia e à teologia. Em 1504 recebeu seu bacharelado em artes e em 1506 o mestrado. A partir daí, Zwínglio foi chamado para ser padre da paróquia de Glarus, ali foi apresentado a Erasmo de Roterdã e ao círculo humanista de Basiléia.
O ministério de Zwínglio bateu de frente com os magistrados, não foi a sua teologia que os afrontou, mas sim, a sua orientação política. Zwínglio não era um pacifista, ele era um patriota, sua oposição tinha um duplo aspecto: econômico e político. Vale ressalvar que sua teologia foi amplamente difundida, ele pregou sermões contra as indulgências, contra a veneração de santos e demais imagens e também investiu contra a teologia escolástica. Zwínglio chegou a ler alguns escritos de Martinho Lutero, todavia, este não passava de um companheiro de luta para Zwínglio, pois, a teologia de Lutero parece não ter tido influência sobre Zwínglio, mas sim, o humanismo bíblico.
Depois que Zwínglio formulou sessenta e sete artigos que foi reconhecido como a carta régia das reformas religiosas em Zurique, foi então ele convocado a um debate para defender suas teses. Seus artigos afirmavam à salvação pela graça de Deus, insistia na autoridade plena da Escritura e final dela, rejeitava o papado, os santos, a missa, as ordens monásticas, o clero celibatário, a penitência e o purgatório. Zwínglio levou a melhor contra as velhas ordens, e o clero de Zurique recebeu ordens do Conselho para limitar a sua pregação à Escritura. A partir desse momento as reformas de Zwínglio alcançaram diversas vitórias. Filipe, um príncipe luterano alemão, estava convencido de que estava na hora de ser criada uma aliança política e militar internacional entre os luteranos e zwinglianos, com a finalidade de proteção mútua contra os poderes contrários e de proporcionar o alastramento da Reforma. Logo, percebeu que seu intento era irrealizável, a menos que os antagonismos entre luteranos e zwinglianos quanto à Ceia do Senhor fossem deixadas de lado.
À frente de uma igreja em Zurique está um monumento em homenagem a Zwínglio, em uma de suas mãos está a Bíblia enquanto na outra a espada. A foto pode ser vista em meus albúns no Picassa.
Anabatistas
O foco de crescimento dos anabatistas estava na cidade de Zurique, onde Zwinglio era um dos reformadores, pois eram em sua grande maioria seus ex-discípulos. O movimento provinha da reformação radical idealizada por Tomás Müntzer, no corpo de sua doutrina – ainda em construção – estava a negação do batismo aos infantes, contestavam contra o batismo dos mesmos alegando não encontrarem respaldo bíblico suficiente para tal prática. Também exigiam o rebatismo dos crentes e, não aceitavam a união entre Igreja e Estado, a égide para tamanha radicalidade provinha da hermenêutica do sermão do monte proferido por Jesus. No sermão mencionado eles entendiam que Jesus pedia que seus discípulos fossem sectários, ou seja, se afastassem do mundo.
Os anabatistas partilhavam a sua vida em forma de comunidade, todos - ao exemplo do relato do livro de Atos - tinham tudo em comum. Uma inspeção na vida dos fiéis era diária e baniam de suas comunidades aqueles que violassem as leis. A eclesiologia anabatista levou ao ensino de um tríplice batismo. Para eles, o batismo devia ser o sinal de uma comunidade renovada, e esta admissão só é possível através do mesmo, portanto, o batismo verdadeiro é primeiramente: um batismo interior pelo Espírito Santo. Após isso, ocorre o batismo pelas águas, que é o sinal dessa fé e de uma vida renovada. E por fim, visto que os cristãos não são deste mundo, virá à rejeição e a perseguição, este é o terceiro batismo, ou seja, o martírio.
Quem recebeu reputação de ser o fundador do anabatismo foi Conrado Grebel (1498-1526). A sua relação com Zwinglio é parecida com a ocorrida entre Lutero e Karlstadt. O batismo que tanto diferenciava o grupo dos anabatistas da teologia luterana e Zwingleana compunha um paradigma para a época, pois, o batismo das crianças não compunha apenas uma norma eclesial, mas sim, uma lei do Estado, portanto, esse foi o motivo pelo levaram a alcunha de “radicais”.
Quando os anabatistas conquistaram a cidade de Müntzer declararam que os ímpios não deveriam ficar vivos, no entanto, logo optaram que àqueles que quisessem viver na cidade deveriam ser rebatizados. O líder desse movimento foi o padeiro Jan; essa política resultou em diversas mortes, alguns morreram pela fome, outros foram massacrados quando dois desertores contaram aos inimigos dos anabatistas onde se encontrava o portão mais frágil para adentrar a cidade.
A Reforma em Genebra
Genebra chegou a ser considerada como uma cidade sagrada, e o líder dessa comunidade foi João Calvino. João Calvino era uma pessoa desalojada da França, nasceu na cidade diocesana de Noyon, situada cerca de 95 quilômetros ao nordeste de Paris. Calvino estudou no Collége de la Marche e depois fez estudos teológicos no Collége de la Montaigu.
Em 1528, Calvino mudou de cidade para estudar em duas famosas escolas de direito: primeiro de Orleans e, depois a de Bouges, onde se formou em direito no ano de 1532. O motivo pelo qual Calvino deixou Paris tem relação com o “Caso Cop”, um jovem havia sido denunciado de ser um propagandista luterano e Calvino era suspeito de ser o co-autor de um discurso religioso inflamado.
Quando Calvino foi para a Suíça não pretendia se envolver em questões religiosas, antes, um lugar sossegado onde exercesse a sua formação jurídica. No entanto, um profeta chamado Farel que cria piamente que a vinda de Calvino à Genebra era um intento divino o ameaçou, dizendo que: se este renegasse seu chamado Deus iria lhe amaldiçoar. A principio essa palavra parece ter sido o único motivo pelo qual Calvino aderiu teologicamente à causa Protestante.
Durante o processo de reforma religiosa na cidade, ficou claro para Calvino que o apelo às Escrituras Sagradas era de suma importância para o desenvolvimento pleno daquela sociedade e a partir desse momento Genebra passou a ter influência religiosa de âmbito internacional. O próprio Villegagnon após sua chegada ao Brasil expediu uma carta a Calvino, o qual havia sido seu professor, pedindo ministros religiosos para zelar com a pequena comunidade reformada que abarcara no Rio de Janeiro.
É um erro concluir que Calvino consolidou seu poder e transformou Genebra em um Estado policial teocrático, pois durante grande parte de sua carreira teve que lutar para consolidar sua autoridade. Calvino não sucumbiu a uma estratégia de favorecimento para obter apoio, nem cidadãos proeminentes, nem seus familiares tinham a permissão de sobrepujar a lei.
Calvino, assim como Lutero, vinha a tempo sofrendo de várias enfermidades e, morreu em 27 de maio de 1564 com a idade de cinqüenta e cinco anos.
A renovação católica e a Contra-Reforma
Paulo IV é às vezes denominado como o primeiro Papa da Contra-Reforma por causa de sua rigidez dogmática e sua determinação de eliminar o Protestantismo. O movimento de renovação centrou-se na repressão e foi este o motivo de ganhar o nome de Contra-Reforma. A Inquisição tem raízes que remontam as medidas judiciais tomadas no século XIII contra a heresia dos catáros, mas foi a Ordem dos Jesuítas que se tornou o baluarte da Inquisição e da Contra-Reforma.
Inácio de Loyola é um dos principais nomes tanto da Reforma Católica quanto da Contra-Reforma, seus planos eram a principio diferentes dos que conhecêssemos hoje, seu intento era ser um cavaleiro, todavia, quando foi defender a cidade de Pamplona contra uma investida da França seu sonho acabou. Inácio foi atingido por uma bala de canhão, a qual quebrou uma de suas pernas e feriu a outra, por este motivo, ficou impossibilitado por um determinado tempo de andar. Foi nesse período que leu as obras: Vida de Cristo e Flores dos Santos, a partir daí entendeu que sua vocação era espiritual, almejava ser um cavaleiro espiritual. E fundou juntamente com outros jovens a Companhia de Jesus.
A Companhia de Jesus foi a última ordem monástica medieval relevante, a ordem investiu esforços na educação, sendo Loyola o fundador de diversas escolas.
Legados da Reforma Protestante
Uma das conseqüências diretas das reformas religiosas na Europa foi a divisão da Igreja Católica medieval numa série de igrejas. A cultura também recebeu grande influência com a Reforma, pois a igreja medieval tinha feito um dualismo acerca do serviço clerical e o secular. Dessa forma, as pessoas que trabalhavam a serviço da igreja eram tidas como superiores e mais amados por Deus do que aqueles que prestavam serviços tidos como seculares ou profanos. A Reforma Protestante afirmou que todo aquele que fizesse o bem ao próximo era agradável a Deus.