A Sociedade Feudal -

    Marc Bloch

    Edições 70
    2009
    609 páginas
    20h 18m
    ISBN-13: 9789724413952
    Português Brasileiro

    A obra aborda o período que vai de meados do século IX até aos primeiros decênios do século XIII, num quadro geográfico que abrange a Europa ocidental e central. Bloch apresenta o meio e as condições de vida, os laços de sangue, a vassalidade e o feudo, as classes, a dependência das classes inferiores, o governo dos homens e a feudalidade como tipo social. Ao mesmo tempo, avalia o papel da Igreja, da realeza, da força burguesa, da cidade, da comuna.

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    Doney Corteletti Stinguel13/07/2024Resenhou um livro
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    Lista de Livros: A Sociedade Feudal, de Marc Bloch

    Parte I: “O traço fundamental [da Primeira Idade Feudal] permanece a universal e profunda descida da curva demográfica. Incomparavelmente menos numerosos, em toda a superfície da Europa, do que nos parece, não apenas desde o século XVIII mas também desde o século XII, os homens eram também, segundo tudo leva a crer, nas províncias ainda há pouco submetidas à dominação romana, sensivelmente mais raros do que nos belos tempos do Império. Mesmo nas cidades, onde os mais importantes não ultrapassavam uns escassos milhares de almas, existiam por toda a parte terrenos baldios, jardins, e até por vezes campos cultivados e pastagens por entre as casas. Esta ausência de densidade era ainda agravada por uma distribuição desigual. Certamente que as condições físicas, tal como os hábitos sociais, conspiravam para manterem, nos campos, profundas variedades entre os regimes de habitat. Por vezes, as famílias, ou pelo menos algumas, haviam-se fixado bastante longe umas das outras, cada uma no meio da sua própria exploração agrícola: assim era no Limosino. Doutras vezes, pelo contrário, como na Ilha de França, concentravam-se, quase todas, em aldeias. No entanto, no conjunto, a pressão dos chefes, sobretudo a preocupação com a segurança, eram outros tantos obstáculos para uma dispersão mais acentuada. As perturbações da Alta Idade Média tinham provocado frequentes concentrações. Nestes aglomerados, os homens viviam muito perto uns dos outros, mas os povoados eram separados por vários espaços desertos. A própria terra cultivável, da qual a aldeia retirava o seu sustento, tinha que ser, proporcionalmente ao número dos habitantes, muito mais vasta do que hoje. Pois naquele tempo a agricultura era uma grande devoradora de espaço. Nas terras lavradas, incompletamente cavadas e sempre privadas de adubos suficientes, as espigas não cresciam bem criadas nem muito bastas. Especialmente, nunca a propriedade apresentava colheitas simultâneas. Os sistemas de cultivo mais aperfeiçoados exigiam que, em cada ano, metade ou um terço do solo cultivado ficasse em repouso. Muitas vezes, até, o repouso das terras e o cultivo sucediam-se numa alternância sem tempo estabelecido, concedendo sempre um tempo mais longo à vegetação espontânea do que ao período de cultura; neste caso, os campos eram apenas provisórias e breves conquistas sobre os baldios. Assim, no próprio seio dos terrenos, a natureza, sem cessar, tendia a sobrepor-se. Para além dos terrenos amanhados, envolvendo-os e penetrando-os, desenrolavam-se florestas, matos e charnecas, imensas zonas selvagens, das quais o homem raramente estava de todo ausente, mas que, sendo carvoeiro, pastor, eremita ou fora-da-lei, habitava apenas à custa de um longo afastamento dos seus semelhantes.” * Mais do blog Lista de Livros em: https://listadelivros-doney.blogspot.com/2024/07/a-sociedade-feudal-parte-i-de-marc-bloch.html XXXXXXXXXXXXXXXXXX Parte II: “E isto não era tudo. A evolução da economia desencadeava uma verdadeira revisão dos valores sociais. Sempre tinha havido artesãos e mercadores. Individualmente, pelo menos estes últimos, tinham mesmo podido, aqui e além, desempenhar um papel importante. Como grupos, nem uns nem outros tinham qualquer importância. A partir do final do século XI, a classe artesã e a classe dos mercadores, que se haviam tornado mais numerosos e muito mais indispensáveis à vida de todos, afirmaram-se cada vez mais vigorosamente no contexto urbano, em especial a classe dos mercadores, pois a economia medieval, desde a grande renovação desses anos decisivos, foi sempre dominada, não pelo produtor, mas pelo comerciante. Não era para estas pessoas que, fundamentada num regime econômico onde elas apenas ocupavam um lugar medíocre, se tinha constituído a ossatura jurídica da época precedente. As suas exigências práticas e a sua mentalidade deviam naturalmente introduzir nela um fermento novo. Nascida numa sociedade de trama pouco apertada, em que as trocas pouco representavam e o dinheiro era raro, o feudalismo europeu alterou-se profundamente logo que as malhas da rede humana se apertaram e a circulação dos bens e do numerário se tornou mais intensa.” * “Em toda literatura, uma sociedade sempre contempla sua própria imagem.” * “Refletir sobre uma mudança é sempre arriscar-se a renunciar a ela.” * Mais em: https://listadelivros-doney.blogspot.com/2024/07/a-sociedade-feudal-parte-ii-de-marc.html XXXXXXXXXXXXXXXXXXX Parte III: “Profundamente dedicado à tradição, mas de costumes violentos e de caráter instável, o homem das idades feudais era, apesar de tudo, muito mais propenso a venerar as regras do que a sujeitar-se a elas com certa constância. Não deparámos já com essas reações contraditórias, a propósito dos laços de sangue? Porém, parece que nesse caso, a origem da antinomia deve ser procurada mais longe: na própria instituição vassálica, nas suas vicissitudes e nas suas variantes.” * Mais em: https://listadelivros-doney.blogspot.com/2024/07/a-sociedade-feudal-parte-iii-de-marc.html XXXXXXXXXXXXXXXXXXX Parte IV: “É, portanto, como resultado da brutal dissolução de sociedades mais antigas que se apresenta a feudalidade europeia. Ela seria, com efeito, ininteligível sem o grande abalo das invasões germânicas que, forçando a fusão de duas sociedades originariamente situadas em estágios muito diferentes de evolução, rompeu os quadros de ambas e fez com que reemergissem tantos modos de pensar e hábitos sociais de caráter singularmente primitivo. Ela (a feudalidade europeia) se constituiu definitivamente na atmosfera das últimas investidas bárbaras. Ela supunha uma profunda desaceleração da vida de relações, uma circulação monetária atrofiada demais para permitir um funcionalismo assalariado, uma mentalidade vinculada ao sensível e ao próximo. Quando essas condições começaram a alterar-se, sua hora começou a passar. (A feudalidade) Foi uma sociedade mais desigual do que hierarquizada: de chefes, mais do que de nobres; de servos, não de escravos. Se a escravidão não tivesse nela desempenhado um papel tão fraco, as formas de dependência autenticamente feudais, em sua aplicação às classes inferiores, não teriam existido. Na desordem geral, o lugar do aventureiro era demasiado grande, a memória dos homens demasiado curta, a regularidade da classificação social demasiadamente mal assegurada para permitir a estrita constituição de castas regulares. No entanto, o regime feudal supunha a estreita sujeição econômica duma massa de pessoas humildes a alguns poderosos. Tendo recebido das idades anteriores a villa já senhorial do mundo romano e a chefaria de aldeia germânicas, ele estendeu e consolidou esses modos de exploração do homem pelo homem e, associando em um inextrincável feixe o direito à renda do solo ao direito ao comando, fez de tudo isso verdadeiramente a senhoria. Em isso, em proveito de duma oligarquia de prelados ou de monges, encarregados de tornar o Céu propício. Em proveito, sobretudo, de uma oligarquia de guerreiros.” * “Faz certamente parte da trajetória de todo sistema de instituições humanas jamais realizar-se senão imperfeitamente.” * “Sujeição rústica; em lugar do salário, geralmente impassível, o largo uso da tenência-serviço, que, no seu sentido exato, é o feudo; supremacia duma classe de guerreiros especializados; vínculos de obediência e de proteção que uniam o homem e, nesta classe guerreira, revestem a forma particularmente pura da vassalagem; fraccionamento dos poderes, gerador da desordem; no meio de tudo isto, no entanto, a sobrevivência doutros modos de agrupamento, parentela e Estado, devendo este, durante a segunda idade feudal, retomar um novo vigor: parecem ser estes os traços fundamentais da feudalidade europeia.” * Mais do blog Lista de Livros em:

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