Rachel de Queiróz em sua plenitude
Rachel de Queiróz em sua plenitude, não são minhas as palavras mas adoto-as como sendo! Quanta afetividade nestas 57 crônicas escolhidas por Herman Lima. Aliás, faz tempo que uma obra não me afeta e dialoga comigo tanto em tantas perspectivas diferentes. Li em outra resenha feita por uma bibliotecária do Clube Tripas que Rachel é atemporal, e esta descrição nunca fez tanto sentido. Ela usa o termo gadget no livro! Em O caçador de tatu, a autora fala sobre a efemeridade da vida e também do homem. Muitas das crônicas apresentadas o homem está em evidência, são suas perdas, seus relacionamentos, aquilo que o torna célebre e digno de ser lembrado até a eternidade e a linha tênue que o faz ser cultuado como herói ou vilão pela ambição que o corrompe. A autora fala de suas invenções, suas revoltas, emigrações, tradições, fala sobre o tempo com um olhar e comentário cuidadoso de tudo que acontecia a sua volta numa descrição do mundo dos anos 50 e 60 mas que é espelho do mundo que vemos hoje. É preconceito de cor, fome, enchentes, mortes por soterramentos, assobios para mulheres nas ruas, falta de água limpa para beber, epidemia, o quarto poder, Amazônia, política - Vejam Brasília. O que horroriza a gente, em Brasília, é pensar que aquele milagre urbanístico, a cidade que brotou de repente dentro do agreste e deserto planalto goiano, é um luxo de povo rico imposto à nossa pobreza. A crônica mais especial pra mim foi a crônica Irmão, que deleite! Como me enxerguei dentro dela, quis correr e compartilhar com o meu, afinal, o que seria de mim sem ele?. Enfim, lágrimas escorrem no final desta leitura e eu as deixo escorrer, assim como os suspiros que dei ao fim de cada uma das crônicas e eu os solto com o prazer de ter lido uma obra que é uma jornada pelo tempo.
