Que primor de leitura! Um presente para quem gosta do Sítio, revisitando informações em uma divertida, interessante e instigante biografia da Emília. Ela é o objeto de estudo, fruto de trabalho acadêmico investigativo na obra de Lobato. Todo parecer vem daí, mas a autora também estendeu alguns ideais em liberdade poética legal.
Tem curiosidades diversas da identidade tão carismática, no campo físico e emotivo. Ah, essa anamnese embalou demais minha leitura. E sou capaz de dar uns pitacos não citados. É o caso dos olhos de retrós que explodiam quando a boneca se espantava, arregalando demais (ponto citado no "Reinações de Narizinho", e ainda bem que só nele, né!).
Confirmou algo que imaginava. Lobato foi retocando a série com várias inspirações oportunistas.
O livro foi providencial também para dúvida que ainda não tinha encontrado resposta. É que os últimos livros da série citam Emília como ex-boneca, pois havia virado gente. Basta lembrar de "A Chave do Tamanho", onde ela é afetada junto com a humanidade (ao contrário do Visconde, que era boneco e não foi afetado). Pois bem! Na investigação da autora (registrada em um período de dez anos antes da tese) a transformação ocorrera no "História das invenções". Ah, mas como e quando, esse spoiler não libero. Posso afirmar, porém, que requer entusiasmo imaginativo para aceitação que, no meu caso, ocorreu sem dificuldades.
A dissertação de mestrado da autora foi base para esse livro, que tem direcionamento infantojuvenil. Fiquei curioso se a concepção final preservou todos os aspectos abordados na tese sobre a Emília, pois algumas partes pareceram atenuadas, separadas de um contexto que originalmente é impactante. Um é na questão ambiental e o outro no preconceito racial. Os livros de Lobato que identifiquei mais impactantes nesse contexto estão entre os primeiros da série. "Caçadas de Pedrinho" tem uma narrativa horrível da morte da onça (coisa sádica) e "Memórias da Emília", onde a bonequinha ofende a Tia Nastácia da maneira mais agressiva em toda a série (levando-a às lágrimas). Se há um ponto que não curti nessa biografia, foi a falta de criticidade nesses aspectos. São mostrados de maneira atenuada. Já que houve a liberdade poética da Emília contar algumas coisas, bem que poderia falar algo sobre esses assuntos. Para mim, é o que faltou na obra de Lobato, um contraponto, como havia em relação à aspectos científicos, mas se deixou rolar nesses assuntos. Fica o registro. Um pouco mala de minha parte, mas presente em minhas impressões da obra.
Aspecto bacana nessa abordagem o capítulo com estudo da presença do Sítio na TV. Foi descoberta saber que antes da famosa série (a partir de 1977) houve outras iniciativas, com seriado que durou uns 10 anos entre as décadas de 1950 e 1960.
Outra curiosidade importante. O Sítio ganhou prêmio da UNESCO em 1979, como melhor programa infantil. A Globo exportou para vários países, mas não houve aceitação em Angola por terem percepção da Tia Nastácia como uma escrava. Fato histórico que não conhecia.
Legal o dicionário da Emília! As criações da bonequinha que acho mais sensacionais são "azeite de defunto" (para o petróleo), "Vacas vegetais" (para as seringueiras) e "Crocotós" (uma forma preguiçosa de referenciar qualquer parte corporal). Cada uma tem um contexto de abordagem interessante. É, mas a palavra mais incrível no universo dos pica-paus não foi dita pela Marquesa de Rabicó! Veio da Tia Nastácia no "Viagem ao Céu". Saca só essa: "Fisolustria" (vou deixar em suspense o que significaria).
E tem também uma parte com algumas pérolas da Emília. Gostei muito da leitura (de muita fisolustria) e vou encerrar com uma pérola que não foi citada no livro: "E sossorossossó!".